domingo, 16 de outubro de 2016

Desabafo sobre Mundo Adotivo...



Estou no mundo na adoção deste maio de 2012. Estes anos foram de muita aprendizagem para mim e também de muitas decepção!

Quando, eu e meu marido, resolvemos dar entrada com o pedido de habilitação, tinha a ILUSÃO de que havia uma chuva de crianças para se adotar no Brasil dentro do nosso perfil desejado da época, que era menina entre 4 e 6 anos, etnia branca ou parda. Logo que ligamos para a VIJ da nossa comarca, para tomar ciência dos documentos e tempo de espera para o nosso perfil, levamos um balde á água gelada, media de espera para o perfil desejado, 4-5 anos. Quem me conhece, sabe que paciência não é meu forte, nem um pouco, por sinal!

Entrei nos grupos de apoio a adoção que tinha no ORKUT e lá aprendi MUITOOOO!!!!

Descobri os perfis das crianças disponíveis para a adoção... Quais eram as características padrões de suas famílias biológicas, quais eram os desafios de quem opta por adoção tardia (tardia de fato, acima de 6 anos), quais os passos da habilitação, destituição, guarda, adoção... Mergulhei em um aprendizado imenso! Descobri o significado dos termos jurídicos, troquei sonhos com os demais, mas principalmente, cresci como pessoa. Descobri que queria ser mãe! Que o filho idealizado, não era o filho real abrigado. Descobri que o papel de mãe que idealizei que eu seria, iria ser trocado, rapidamente, pelo perfil de mãe que meu filho ou filha necessitaria.

Sim, soube de comarcas e juízes relapsos, que simplesmente esqueciam crianças em abrigos, soube de crianças abrigadas destes bebês. Soube de defensores públicos biologistas ao extremo, soube de retorno de crianças a suas famílias biológicas que terminaram em tragédias ou em traumas maiores... Mas soube também que a grande maioria tenta fazer o certo! Soube de grupos de irmãos abrigados tardiamente, que não tinham adotantes porque eram velhos demais... Soube de crianças sem adotantes, pq o histórico familiar era complicado, de crianças abusadas (física ou emocionalmente) que tinham o seu direito de ter família esquecidos, porque simplesmente o passado as condenava, um passado que elas não tinham qualquer culpa, mas elas é que foram condenadas a viverem em abrigos.  

Cresci, amadureci, mudei o perfil e me tornei mãe dos filhos que Deus e a justiça me confiariam antes mesmo deles chegarem, até mesmo de terem sexo, idade, etnia ou nomes conhecidos. E assim como eu, tive o privilegio de ver muitas outras famílias ampliando, grupos de irmãos, HIV, idade, sexo indiferente, doenças graves ou moderadas, deficiências...

Infelizmente, nos últimos meses tenho visto um retrocesso de perfil... A cada pergunta que leio nos grupos de apoio, meu coração murcha, porque vejo o distanciamento gritante da realidade das crianças e jovens abrigadas.

  • Habilitados querendo “filhos” bilíngues, onde a maioria das crianças abrigadas tem defasagem escolar.
  • Habilitados querendo fazer “teste drive” antes de aceitar adotar, usando o projeto de apadrinhamento afetivo com má intenção.
  • Habilitados querendo “filhos” como muletas para cuidar dele na velhice, como se adoção fosse moeda de troca.
  • Habilitados querendo bebês e reclamando da espera, que certamente será longa em quase todas as comarcas brasileiras, afinal VIJ não é fabrica de bebês!
  • Habilitados para bebês saudáveis, CONDENANDO e CRITICANDO quando os adotantes de adoção tardia, grupos de irmãos, crianças especiais expõem sua alegria em sua maternidade/paternidade. Mostrando que o filho não precisa ser “perfeito” para torna-los felizes e pedindo uma reflexão dos demais, para que eles também pensem se não dá para abrir um pouco mais o perfil.
  • Habilitados de adoção tardia e/ou grupos de irmãos, querendo praticamente um book e currículo das crianças abrigadas, porque entendem que já que aceitam um perfil mais amplo, elas têm o direito de escolher a dedo a criança que aceitará em sua casa.
  • Pais adotivos, descrevendo as crianças e jovens que aceitaram como “filhos”, como ingratos e problemáticos, com má índole, simplesmente porque acreditam que os filhos devem ser AGRADECIDOS pela grande caridade de ter sidos adotados, desconhecendo por completo as fases de adaptação.


Tenho a sensação de que as pessoas se habilitam e esquecem que se preparar para uma maternidade ou paternidade, seja adotiva ou biológica, é uma preparação constante, que leva meses e mesmo assim, depois, terá momento que ficará totalmente perdido, mas terá, dentro de si, a certeza que deseja ser mãe ou pai para sempre, custa o que custar.

Esquecem que na ADOÇÃO a PRIORIDADE é encontrar FAMÍLIAS para as crianças e jovens REAIS abrigados, e não crianças irreais para os adultos insurgentes!

domingo, 9 de outubro de 2016

Hoje é Dia de Festa

Tudo bem, não faz tanto tempo assim, mas alguns detalhes se perdem com o tempo... Forço um pouco a memória e lembro que passamos na VIJ, conversamos com a equipe técnica e pegamos a autorização para conhecer e começar a aproximação com a nossa pequena. Com o coração na boca falamos que iríamos naquela mesma tarde ao abrigo, afinal nossos corações estavam os pulos pela imensa curiosidade de saber como era a nossa filha e de vontade de pega-la no colo...

Nossa amiga e cegonha Ana Paula nos leva até ao abrigo, se despede nos desejando sorte com um sorriso enorme no rosto... Uma nova Cegonha entrava nas nossas vidas para nunca mais sair... Respiramos fundo e apertamos a campainha do abrigo, logo vem uma jovem abrir, nos leva na recepção pedindo para sentarmos, vem à psicóloga e ali começa uma conversa, fico naquele momento imaginando quantas conversas como aquela elas já tinham invocado e presenciado, quantas historias aquele sofá foi testemunha e quantas ainda aconteceriam naquele local.

Depois das conversas, eis que a enfermeira entra com um toquinho de gente no colo – minha mente bateu asas naquele momento, indo ao passado, exatos 1 ano e meio antes, quando conhecemos o nosso primeiro filho, um meninão de 8 anos, mas que usava roupas tamanho 6, que naquele momento pouco lembrava o garoto enorme que ele tinha se tornado – minha mente volta ao presente se questionando – por que será que crianças abrigadas são tão miúdas?



Naquele momento tomei consciência que eu era uma decepção naquele abrigo, principalmente se a equipe esperava uma mãe calorosa! Estarrecida, assustada, abismada, congelada eram palavras que me descreviam perfeitamente naquele momento!

        Eu comecei a caminhar na maternidade de trás para frente, meu primeiro filho chegou “criado”. Comia, tomava banho, se arrumava sozinho e agora estava vindo um bebê, era tudo novo, uma nova realidade, na pratica, me tornei mãe de primeira viagem!

Quando a gente esta na fase da espera e recebe o famoso telefonema, a nossa imaginação nos pega uma peça... 1 ano e 3 meses, esta era a informação que eu tinha, passei a imaginar o tamanho... Procuramos outras crianças da mesma idade e fomos “montando” a nossa filha, quando eu a vi entrando, tão miudinha, com aquele olhar enorme, desconfiado, simplesmente travei e pensei - Vou dar conta? - Meu marido, na hora viu meu desespero, tomou à dianteira e a acolheu em seu colo. Naquele dia éramos duas nos questionando, parecia que dava para ver a incerteza no olhar da Juju - Esta vai ser a minha mãe? Sei Não! Não me parece que ela sabe o que tá fazendo! 



Hoje vejo que a equipe do abrigo sentiu meu pavor, pois me pediram para dar comida, brincar, dar banho, acho que era para "quebrar o gelo", como dizem! Eu fiz o que me pediram, mas era visível a desconfiança da pequena em minha capacidade. rssss



Agora os meses passaram, hoje ela completa 3 anos... Faz quase 2 anos que ela chegou e agora nada me assusta... Ops! Quase nada! Somente a inteligência da pequena, que é capaz de dar nó em pingo d’água!


Parabéns Juju! Parabéns Filha!!! 
Feliz 3 aninhos!!!