Estou no mundo na adoção deste maio de 2012. Estes anos foram de muita aprendizagem para mim e também de muitas decepção!
Quando, eu e meu marido,
resolvemos dar entrada com o pedido de habilitação, tinha a ILUSÃO de que havia
uma chuva de crianças para se adotar no Brasil dentro do nosso perfil desejado
da época, que era menina entre 4 e 6 anos, etnia branca ou parda. Logo que
ligamos para a VIJ da nossa comarca, para tomar ciência dos documentos e tempo de
espera para o nosso perfil, levamos um balde á água gelada, media de espera
para o perfil desejado, 4-5 anos. Quem me conhece, sabe que paciência não é meu
forte, nem um pouco, por sinal!
Entrei nos grupos de apoio a
adoção que tinha no ORKUT e lá aprendi MUITOOOO!!!!
Descobri os perfis das crianças disponíveis
para a adoção... Quais eram as características padrões de suas famílias biológicas,
quais eram os desafios de quem opta por adoção tardia (tardia de fato, acima de
6 anos), quais os passos da habilitação, destituição, guarda, adoção...
Mergulhei em um aprendizado imenso! Descobri o significado dos termos jurídicos,
troquei sonhos com os demais, mas principalmente, cresci como pessoa. Descobri
que queria ser mãe! Que o filho idealizado, não era o filho real abrigado.
Descobri que o papel de mãe que idealizei que eu seria, iria ser trocado, rapidamente,
pelo perfil de mãe que meu filho ou filha necessitaria.
Sim, soube de comarcas e juízes relapsos,
que simplesmente esqueciam crianças em abrigos, soube de crianças abrigadas destes
bebês. Soube de defensores públicos biologistas ao extremo, soube de retorno de
crianças a suas famílias biológicas que terminaram em tragédias ou em traumas
maiores... Mas soube também que a grande maioria tenta fazer o certo! Soube de
grupos de irmãos abrigados tardiamente, que não tinham adotantes porque eram
velhos demais... Soube de crianças sem adotantes, pq o histórico familiar era
complicado, de crianças abusadas (física ou emocionalmente) que tinham o seu
direito de ter família esquecidos, porque simplesmente o passado as condenava,
um passado que elas não tinham qualquer culpa, mas elas é que foram condenadas
a viverem em abrigos.
Cresci, amadureci, mudei o perfil
e me tornei mãe dos filhos que Deus e a justiça me confiariam antes mesmo deles
chegarem, até mesmo de terem sexo, idade, etnia ou nomes conhecidos. E assim
como eu, tive o privilegio de ver muitas outras famílias ampliando, grupos de
irmãos, HIV, idade, sexo indiferente, doenças graves ou moderadas, deficiências...
Infelizmente, nos últimos meses
tenho visto um retrocesso de perfil... A cada pergunta que leio nos grupos de
apoio, meu coração murcha, porque vejo o distanciamento gritante da realidade
das crianças e jovens abrigadas.
- Habilitados querendo “filhos” bilíngues, onde a maioria das crianças abrigadas tem defasagem escolar.
- Habilitados querendo fazer “teste drive” antes de aceitar adotar, usando o projeto de apadrinhamento afetivo com má intenção.
- Habilitados querendo “filhos” como muletas para cuidar dele na velhice, como se adoção fosse moeda de troca.
- Habilitados querendo bebês e reclamando da espera, que certamente será longa em quase todas as comarcas brasileiras, afinal VIJ não é fabrica de bebês!
- Habilitados para bebês saudáveis, CONDENANDO e CRITICANDO quando os adotantes de adoção tardia, grupos de irmãos, crianças especiais expõem sua alegria em sua maternidade/paternidade. Mostrando que o filho não precisa ser “perfeito” para torna-los felizes e pedindo uma reflexão dos demais, para que eles também pensem se não dá para abrir um pouco mais o perfil.
- Habilitados de adoção tardia e/ou grupos de irmãos, querendo praticamente um book e currículo das crianças abrigadas, porque entendem que já que aceitam um perfil mais amplo, elas têm o direito de escolher a dedo a criança que aceitará em sua casa.
- Pais adotivos, descrevendo as crianças e jovens que aceitaram como “filhos”, como ingratos e problemáticos, com má índole, simplesmente porque acreditam que os filhos devem ser AGRADECIDOS pela grande caridade de ter sidos adotados, desconhecendo por completo as fases de adaptação.
Tenho a sensação de que as
pessoas se habilitam e esquecem que se preparar para uma maternidade ou
paternidade, seja adotiva ou biológica, é uma preparação constante, que leva
meses e mesmo assim, depois, terá momento que ficará totalmente perdido, mas
terá, dentro de si, a certeza que deseja ser mãe ou pai para sempre, custa o
que custar.
Esquecem que na ADOÇÃO a
PRIORIDADE é encontrar FAMÍLIAS para as crianças e jovens REAIS abrigados, e
não crianças irreais para os adultos insurgentes!




