Eu cresci na periferia e ouvi
muito: “Serviço de preto!” - “Cabelo Bombril!” - “Preto quando não caga na
entrada, caga na saída!” E nunca me atentei em tentar entender o que aquilo
significava, como todos os brancos, aquilo não me referia, então, não tinha
porque pensar naquilo e passava batido.
A questão do racismo nunca me
preocupou, sou descendentes de italianos e o tema sempre me pareceu algo
distante, inventado por aquelas pessoas que gostam de polemizar tudo. Afinal,
nunca tinha julgado alguém pelo tom de pele ou pelas suas características físicas,
mas sim pelo caráter e suas atitudes, aprendi com meus pais a respeitar a todos
e segui a vida.
Quando me casei com um típico brasileiro,
mistura de várias raças (índio, negro, português), o assunto também continuou a
ser desconhecido para mim, não me pertencia. Até eu resolver ser mãe por
adoção, aí a minha vida mudou e a cada dia tem se aberto mais para esta
questão.
Meu primeiro filho é pardo, até
então, ficou tranquilo. Obvio que já nos preocupamos com os possíveis preconceitos
que ele passaria, mas para a sociedade, parecia tranquilo eu ter um filho
pardo, mas quando chegou a segunda filha, negra, aí o choque da sociedade foi
maior.
Impossível sair com ela e as
pessoas não pararem! Olharem, comentarem! E é incrível, dá para sentir o “tom
do olhar”, há muitos olharem de encantamento pela beleza da minha filha, mas há
olharem que queimam, de preconceito, de condenação, de incredulidade. Já ouvi: “Como
pode você ter uma filha negra!?!” - “Puxou quem, já que a mãe não foi?” – “Que
linda, moreninha né?!”
Neste meio tempo, minha terceira
filha chegou, também pela via da adoção, mas é branca, obvio que sair com ela,
é passar despercebida por todos, mas quer ver sair com as duas! TODOS, absolutamente,
TODOS param! Já vi olhares de senhoras recatadas inquisidores, indo e vindo das
minhas filhas até a mim, questionando como pode! Buscar as meninas na escola já
virou motivo de risadas minha e do meu marido, porque o olhar escandalizado das
mulheres e homens no portão da escola, questionando se cada uma é de um pai é hilário!
Recentemente viajei com minha família,
no meio da viagem resolvemos entrar em uma cidade e fazer uma parada, para
dormir, para as crianças descansarem. Pedi um quarto, tudo certinho, fui buscar
as crianças no carro. Estava tudo certo, até o recepcionista me ver chegando
com a minha filha - negra - no colo. Já reconheci o olhar questionador e já
pensei “lá vem!”. “A senhora tem o
documento da criança?” Para mim não é problema apresentar o documento, mas que
isso fosse padrão, ele não pediu o documento da minha filha branca ou do meu
filho pardo, mas da minha filha negra!
Quando chegamos no destino da
viagem, um resort, meus olhos já a caça de outras pessoas negras, para servir
de referência para meus filhos. Em um local com mais de 200 quartos, havia
apenas um homem com o filho, ambos negros. Sem recepcionistas, sem atendentes,
sem funcionários negros. Minto, uma das camareiras era negra. E assim sigo, buscando
referencias negras para meus filhos, na escola, no banco, na loja, no
shopping... E infelizmente, poucos eu achei! As recepções, os gerentes, os empresários,
os administradores, os professores quase todos são brancos!
Aí, vejo nos grupos de WhatsApp e
Facebook os brancos, que não vivenciam o racismo, questionando as cotas,
alegando que isso é o maior racismo! Como eles podem alegar conhecimento de
causa, se não vivenciam o racismo diariamente? Que não sabe o que é sentir a ardência
do olhar do outro? Que não sabe o que é não ter direito de sair de boné e
chinelo em um dia qualquer, pq pode ser julgado de trombadinha? Que tem que se
manter impecável, para ser tratado com dignidade? Não sou a favor e nem contra
as cotas, mas acho que este tema, deve ser debatido com quem vive isso
diariamente, os negros! Mas questiono, se não empoderarmos uma ou duas gerações
para que eles possam superar os anos de desvantagens sociais, econômicas e
escolares, quando vamos quebrar este tabu em relação a etnia?
