domingo, 29 de novembro de 2015

Se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim...

Faz tempo que quero escrever sobre isso, sobre a simples palavra PEGAR com o ato ADOÇÃO... Estas duas palavras NUNCA devem andar juntas, a não ser que deseje ferir ou arrumar uma boa briga!

Primeiro vamos ao significado no dicionário das palavras:
- PEGAR: Agarrar, segurar;

- ADOÇÃO: Ação de adotar: a adoção de uma criança, de uma lei. // Adoção plena, adoção na qual a criança adotada se integra completamente na família do adotante e perde qualquer laço com a família de origem. // Adoção simples, adoção na qual os laços de sangue subsistem.

Você pode pegar um sapato que a sua irmã não deseja mais, ou segurar um vaso de flor que alguém esta jogando fora, ou seja, você pode pegar um objeto ou no máximo, você pode pegar um boa gripe ou vírus, mas JAMAIS pode pegar um criança! Então no mundo da ADOÇÃO, ninguém PEGA ninguém para criar. Você o adota, e a partir dali, ele passar a ser parte da sua família e uma pessoa muito importante na sua vida.

Eu já escutei certas frases que dá até um nó no estomago...

- Onde você foi PEGAR esta criança?
- Quando foi que você o PEGOU?
- Você não em medo de PEGAR uma criança dos outros para criar?
- Porque, com tantas crianças por aí, você foi PEGAR um grandinho?

Então, se você não deseja ouvir uma resposta grosseira ou até mesmo perder a amizade, NUNCA fale para os seus amigos ou familiares que adotaram esta palavra referindo à adoção.

"...Se não nasceu de mim, certamente nasceu para mim..."

Não somos santos!


Outro choque que sofremos quando resolvemos adotar, é que as pessoas passam à nos ver como seres iluminados e abençoados. São muitas as frases que nos deixam em choque e até mesmo, sem resposta!

- Nossa! Você é uma pessoa iluminada!
- Vocês vão ver... Deus agora vai abençoar tudo na casa de vocês!
- O bem que vocês estão fazendo, terá um retorno!
- Nossa, vocês já tem vaga no céu, ainda mais porque adotou tão grandinho, moreninho, mais de um...

E por aí vai as frases com bençãos e expressões de incredulidade pelo nosso ato heroico! São tantas bençãos que tenho a sensação que posso matar alguém, que ainda assim terei a minha vaga no céu me esperando! Huahuahuahuahuahua

O que TODOS desconhecem, é que quem adota, NÃO faz isso por caridade, faz por amor, um amor até de certa forma egoísta! A gente quer ser mãe ou pai e pronto! Ele é NOSSO deste que damos as costas para a porta do abrigo, ninguém mais o tira de nós, estufamos o peito e já ficamos preparados para qualquer palavra azeda ou com dúbia interpretação! Sempre estamos com armas em punho para defender a nossa cria!

Então vamos evitar gafes pessoal... se os seus amigos ou familiar adotaram, simplesmente dê o parabéns, como se dá para qualquer outra pessoa que esta na maternidade, e diga como o filho ou filha é lindo!!! Todo pai e mãe adora ter a cria elogiada

Pérolas da Adoção


Em muitos casos adoção e boca fechada deve SEMPRE andar juntos! Tem gente que além de sem noção, é completamente preconceituoso... No mundo da adoção se escuta casa coisa, que a gente se pergunta até onde chega à ignorância humana! Estas frases ou comentários são o que chamamos de PÉROLAS DA ADOÇÃO!

Lá vão algumas que ouvi durante todos estes anos:
- Nossa que corajosa, eu não sei se conseguiria.
- Você não tem medo de quando ela crescer vá te matar quando você estiver dormindo?
- Você vai ver daqui uns anos o que foi arranjar pra cabeça!
- Você não sabe o que esta criança tem no sangue, vai que é filha de bandido ou drogado!
- Pegou pra criar?
- E você nunca teve vontade de ter um filho de verdade?
- Ahhhhh, quando você for mãe de verdade você vai entender!

Então, se você é uma destas pessoas que não consegue amar uma pessoa que não gerou, e acha um absurdo alguém adotar um “filho dos outros”, POR FAVOR, mantenha a BOCA FECHADA e dê no máximo um sorrisinho de canto dos lábios, nós não precisamos de seu veneno!

Adoção Tardia X Busca Ativa


Quando a gente opta por adoção tardia, a gente acredita que tudo ocorrerá muito rapidamente, que vamos sair habilitados e logo depois – na primeira semana – receberemos uma chuva de telefonemas de vários cantos do país falando de crianças disponíveis... Ledo engano! 

Obvio que na adoção tardia, assim como na adoção de grupos de irmãos, HIV+ e adoção especial, o processo é bem mais rápido, afinal você esta fugindo do padrão... Mas mesmo assim, já vi vários casais com perfil mais amplo que o nosso, passar muito tempo na – famosa - fila do CNA no aguardo dos seus filhos! Isso é algo que ainda não compreendo e ninguém consegue me explicar!!! Gostaria muito que se mudasse essa realidade, pois são crianças que estão lá, dentro de 4 paredes de uma instituição, esquecidas pela sociedade! Sendo vistas com discriminação ao invés de serem vistas como vítimas!!!

Quando nos habilitamos, muitas pessoas estranharam quando, em apenas uma semana, já estávamos de malas prontas para a viagem que mudaria as nossas vidas para sempre! Fizemos sim, o que muitas pessoas não aconselham e até viram a cara, a famosa Busca Ativa!

A história do nosso filho chegou até nos através de amigos do grupo de adoção, e nós despertamos para um perfil, que até então não fazia parte das nossas mentes. Um menino! Para nós que já tínhamos comprado tudo para meninas - decoração, cama, brinquedos - foi uma mudança radical! Mas quando fizemos a pergunta para nós mesmos, “por que não um menino?”, não achamos nenhuma resposta valida que justificasse este interesse somente por meninas... Meninas são boazinhas! Conheço um monte que só por Deus mesmo! Meninas criam vínculos mais facilmente! Bom, é só fazer uma busca no Google sobre relatos de adoção para ver que nem sempre é verdade esta afirmação. A única afirmativa verdadeira é que menina dá para enfeitar e menino não, mas queríamos ser pais, não brincar de casinha!

Quando adotamos o nosso filho, ele veio com a sua bagagem, sua história; afinal ele passou 8 anos longe de nós! Teve vivencias de vida, experiências e uma história que deveria ser respeitada e compreendida... Tivemos que aprender a sermos maleáveis, a compreender que ele tinha o TEMPO dele para assimilar tudo, todas as novas informações, rotina, obrigações! Quando nos tornamos pais, muitas foram às vezes a gente esquecia isso e exigimos dele muito mais que estava apto a dar, mas quando lembramos que ele estava lá há tão pouco tempo, notávamos o quando ele tinha evoluído e aprendido! Nestas horas, o peito se enchia de orgulho das proezas do nosso pequeno, das suas vitorias, da sua adaptação e da sua facilidade em nos aceitar como pais!

A adoção tardia é prepará-los para o futuro, sem esquecer o passado, é ajudá-los a superar os traumas com amor e dedicação, é respeitar a capacidade de cada um... Adoção tardia é a expressão do amor incondicional!!!

Lembrem-se, o seu filho virá de onde quer que seja predestinado para você!!! 

Então abra o seu coração e confie em Deus, ele sabe o que é melhor para você!!!

Dica para estágio de convivência.

Uma Dica para quem vai fazer estágio de convivência em outra cidade...

Nosso estágio de convivência foi por 15 dias corridos na cidade do S. Como não dava (nem é recomendado), não foi a família toda! Então fizemos um álbum com as fotos dos familiares (avôs, avós, tios, tias, primos, primas, cães, gatos), até mesmo do quartinho dele que deixamos preparado para recebe-lo. Fomos apresentando tudo pelas fotos, depois de alguns dias, utilizamos o Skype para a conversa, assim quando ele chegasse em casa, não se sentiria um pintinho fora do ninho, deu hiper certo! 


Creio que esta criação do vinculo com os familiares, antes mesmo de conhece-los pessoalmente, fez muito bem ao S., que chegou em casa fazendo festa!

Depois fizemos outro álbum, com as fotos do estágio, dos pontos turísticos da cidade de origem, do abrigo, das tias, da festa que teve enquanto estávamos lá, assim, se sentisse saudades de todos, poderia vê-los por foto!


Família Substituta, família adotiva ou família? Afinal, o que nós somos???


Quando começamos a trilhar o cominho da adoção, que é uma estrada sinuosa, cheia de obstáculos, nos deparamos com termos que por diversas vezes parece que nos classifica com uma família de 2ª categoria.

Consigo compreender, perfeitamente, que o judiciário nos classifique como Famílias Substitutas, afinal, este é o termo que nos destaca em relação à Família de Origem ou Família Biológica. São apenas termos, para que possam, de forma clara, nos classificar aos diversos papeis que fazem parte dos processos de abrigamento, destituição e adoção.

O que NÃO consigo entender é quando os Pais/Mães se lançam nesta segunda categoria... Muitos, ainda imaturos nas suas escolhas, usam termos que segregam – “Sou Mãe de 2 e Mãe adotiva de 1!”, “Tenho 3 filhos e mais 1 adotivo!” – Como se suas obrigações para com o filho que veio pela via da adoção, fosse primária, sem grandes obrigações. Quando na verdade são PAIS, MÃES e FILHOS! A via da construção da família, pouco importa!

Sei que muitas pessoas, que optam pela adoção, não passaram e superaram o luto de não poder gerar uma vida, e esta é uma questão mal resolvida e não se conseguem ver como Pais/Mães de verdade... Há também muitas pessoas que esperam ser reconhecidos pelo grande ato heroico de ter adotado, de ter resgatado uma vida, dando a ela a oportunidade de ter um futuro. Para estas pessoas – que optaram pela adoção pelo motivo errado – recomendo que procure ajuda psicológica, pois jamais se deve adotar para conseguir status de grande e bom samaritano na sociedade ou preencher um vazio, que ainda não foi resolvido.

Para os demais, famílias constituídas pela adoção, que não sabem como se classificar, já passamos por tantos preconceitos perante a sociedade, que nos julga, condena e que lançam nossos filhos a categoria de “marginal em potencial”, vamos fazer um auto reconhecimento, como família! Pura e simplesmente, FAMÍLIA!

Sei que às vezes se faz necessário esclarecer em que via a nossa família foi constituída, mas então vamos usar o termo (quando estritamente necessário) – “Ele é MEU filho POR adoção.”, “SOU Pai/Mãe por adoção!” – Só vamos mudar a forma como a sociedade nos vê, quando esta mudança ocorrer, primeiramente, dento de nós e de nossos lares! 

Poema - Por Uma Nova Cultura da Adoção

Poema - Por Uma Nova Cultura da Adoção

Sou pretinho, sou branquinho...
Posso ser um mulatinho...
Ou descendente de indiozinho...

Sou menino, travessinho...
Ou menina de lacinho...
Posso ser um bebezinho...
Ou somente um garotinho...
Talvez, quem sabe, já um rapazinho...

Mas na verdade eu cheguei aqui pequenininho!
Nem sei bem porque sou passarinho sem ninho...
Fato é que na verdade eu me encontro sozinho!

Moro aqui e em todo canto eu encontro um amiguinho...
Eles são iguais a mim, passarinho sem ninho...
Mas eu sonho mesmo é ter um irmãozinho...
Um papai, uma mamãe, quem sabe um priminho...
Não sou muito exigente, eu só não quero ser sozinho!

Mas o tempo vai passando e eu não vejo outro caminho...
Quem aqui vem não me enxerga, fico sempre no cantinho...
Talvez seja porque eu já não sou mais tão pequenininho...
Não sei quem criou a ideia de que eu não posso sentir carinho...
Só porque já sou um pouco mais velhinho!!!

Talvez temam as marcas que trago em meu corpinho...
Ou achem que eu não possa ser um menino educadinho...
Na verdade, invisível, eu pareço um gasparzinho!

Mas olhe, me escute, eu não quero ser sozinho!!!
Me adote, me ame, me transforme em seu filhinho...
E verás que no meu peito eu tenho sim um coraçãozinho...
Eu só quero conhecer a alegria e completar o seu ninho!

(Bárbara Zambelli - 25/05/2013)

Adoção Tardia e Suas fases.


Recentemente me pediram para descrever exatamente as fases da adoção tardia que meu filho passou e como aconteceu... Na internet, é fácil encontrar o texto da servidora Niva Maria Vasques Campos com o titulo: Adoção Tardia – Características Do Estágio De Convivência. Ele praticamente é uma receitinha de bolo, que meu filho seguiu passo a passo! 

Usando o texto como apoio, vou exemplificar como foram os primeiros meses de adaptação!

1. SURGIMENTO DE COMPORTAMENTOS REGRESSIVOS NA CRIANÇA
“...varia tanto na forma de expressão como na intensidade e são típicos de fases anteriores de desenvolvimento psicológico infantil como p.ex.: fazer xixi na cama ou nas roupas (mesmo que ela não tenha mais idade para esse tipo de comportamento e/ou não faça mais isso no Abrigo), querer usar fraldas e/ou mamadeiras, querer entrar dentro da barriga da mãe adotiva ou mamar em seu peito...”

Esta fase começou logo depois que chegamos em casa, seja engatinhando, seja falando como bebê ele passou a se comportar desta forma quase que diariamente. Suas crises de regressão duravam em torno de 10-15 minutos... Xixi nas roupas aconteceu 2 vezes apenas, assim como no chão do banheiro (tirava a calça e fazia no chão, em vez de fazer no vaso), sem brigas ou alarde, foi explicado que ele já era grande e que deveria sempre ir ao banheiro... Não demos uma grande importância, então ele não tornou a repetir. Na cama, aconteceu apenas 2 vezes... Também passamos pelo episódio dele passar fezes na parede do banheiro! Dei pito e nunca mais fez!

Ele começou a passar mão nos meus seios, fosse em casa, ou em publico (igual bebezinho mesmo), ficava olhando pedindo peito... Eu nunca forcei, deixei ele expressar o desejo de mamar no peito, o que foi explicado que não tinha como. Trocamos por mamadeira, que ele usou por 2 semanas, logo deixou de lado, por conta própria. Ele chegou a pedir chupeta, o que expliquei as consequências (entortar os dentes) e ele acabou usando o bico da mamadeira umas poucas vezes (que não dava nem 5 minutos), depois nunca mais.

2. AGRESSIVIDADE, EM GERAL, LOGO APÓS A FASE DE ENCANTAMENTO MÚTUO. 
“...A eclosão de comportamentos agressivos, violência física e/ou verbal - muitas vezes, gratuita ou sem aparente correlação com fatos concretos - deixa os adotantes frustrados e desconcertados sem saber o que fazer com a criança e sem saber o que fizeram para merecer tal tratamento...”
3. AGRESSIVIDADE EM PARTICULAR CONTRA A MÃE ADOTIVA 
“...é comum a mãe adotiva ser o alvo preferencial dos ataques da criança...”
Vou falar dos itens 2 e 3 juntos, já que a mãe por adoção é que mais sofre com estes episódios, já que além de ser o alvo, também (normalmente) é que fica em casa nos primeiros meses. 
Sim, meu filho me agrediu, tanto física, como verbalmente. Fugas da escola, pedradas na casa da vizinha, desafiava as pessoas que são importantes para nós (para nos afetar), tudo era motivo de guerra. Tapa na cara, chutes, xingos, arranhões... Foi uma realidade terrível de lidar, pois nunca imaginei que ele passaria por esta fase. Creio que tudo começou a dar uma melhorada à partir de 4 meses, quando ele desabafou toda a ira que sentia pelo abandono, que ele nos condenou por deixa-lo no abrigo, pois na cabeça dele NÓS, os PAIS dele o tínhamos deixado lá! Foi uma fase realmente complicada. Foi um período que precisamos de apoio para NÓS, PAIS!

4. RITMO ACELERADO DE DESENVOLVIMENTO GLOBAL DA CRIANÇA 
“... aspecto gratificante para a família adotante, uma vez que percebe a evolução rápida da criança como fruto de sua atenção e investimento. O ambiente familiar oferece novos modelos e a criança aprende tudo muito rápido, cresce, ganha peso...”

Não compre muitas roupas, todas são encostadas muito rapidamente! Meu filho saiu do nº 6 (que usava quando deixou a abrigo), para o nº 10 em questão de 6 meses. Sua pele mudou, ganhou vida, seu sorriso aumentou e o olhar triste/perdido ganhou brilho! 

5. ENFRENTAMENTO DO PRECONCEITO SOCIAL 
“... é frequente os adotantes ouvirem de familiares ou amigos frases do tipo “Para quê foi adotar e ainda por cima uma criança assim tão grande”. Viver e ouvir estas coisas não são fáceis e coloca em dúvida, muitas vezes, os pais adotivos por vezes ainda inseguros e pouco confiantes quanto a sua capacidade para o desempenho dos papéis de pai e mãe...”

Jesus, Maria Jose! Se você ainda não ouviu “as perolas da adoção”, se prepare, vai ouvir muito! Deste: Você não tem medo que ele te mate quando crescer? Até – No abrigo não tinha uma menorzinha para você escolher?

Já ignorei e já dei patada, hoje o pessoal já tá mais esperto e se comenta algo, é por minhas costas!

6. ESFORÇO SIGNIFICATIVO DA CRIANÇA PARA SE IDENTIFICAR COM OS NOVOS MODELOS PARENTAIS 
“...A criança procura imitar os novos pai, mãe, irmão(s) – ‘olha... sou igual a você”. Ela busca estabelecer laços significativos com a nova família, quer se parecer com o pai, com a Mãe, com o irmão...”

Bom, no nosso caso, meu filho e a cópia autenticada do meu esposo e tem o gênio difícil meu! Então todos cometam que ele é de fato nosso filho, que só nasceu na casa errada, mas ele absorveu nossa forma de falar e nossas tiradas! Aos poucos, esta buscando se identificar com o jeito brincalhão do pai e esta aprendendo a tirar sarro de tudo! 

7. CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO DE FILIAÇÃO COM ATROPELAMENTO DE ETAPAS
“...O vínculo de sangue não produz necessariamente o vínculo afetivo e a filiação pode se dar independentemente do primeiro, pois está mais relacionada à disponibilidade e a dedicação do pai/mãe pelo filho(a) do que pela biologia compartilhada. Um vínculo forte, um laço como esse também não se constrói do dia para noite, inclusive entre pais e filhos biológicos...”

8. O VÍNCULO DE FILIAÇÃO PODE SE DAR DE FORMA DIFERENCIADA
“...Cada pessoa ama e expressa seu amor de forma diferente. É normal e natural que existam diferenças na relação entre pai e filho, mãe e filho, pai e filha, mãe e filha, inclusive, ditadas pela cultura ou tradição. Também existem diferenças na relação do mesmo pai e da mesma mãe com filhos diferentes. Isso ocorre em todas as famílias e na adoção também...”

Vou falar dos itens 7 e 8 juntos, já que eles se completam... 
Já falei no item 1 que nosso filho teve regressão e com ela veio o Complexo de Édipo, que teve que ser observado de perto pela psicóloga dele. O que também ocorreu - quando ele finalmente descarregou a raiva que tinha pelo abandono e pelo abrigamento - foi o renascimento. Em uma manhã de final de semana, ele veio até a minha cama, entrou entre as minhas pernas e fez o renascimento. Foi um momento mágico, de entrega e aceitação da condição de filho nosso!

9. AQUISIÇÃO DE NOVOS HÁBITOS 
“...a criança é inserida em outro grupo (familiar, social, cultural) com hábitos e valores diferentes daqueles do grupo anterior no qual se encontrava. Todos sabemos como é difícil - e leva tempo - modificar costumes e hábitos...”

Creio que o “obstáculo” maior que tivemos que lidar foi: Quem ama, não bate! Meu filho falava: “Você diz que ama a mamãe, mas não bate nela!” e, “Mãe, me bate!” 

Outra coisa, foi a a questão cultural, nosso filho veio machista! Homem não lava louça, não usa rosa, não carrega a bolsa da mulher. Mulher não dirige, mulher cozinha e cuida da casa... Isso teve que ser mudado, ainda mais no contesto familiar nosso, onde não há nada de coisa de homem e/ou coisa de mulher! 

Fonte: ADOÇÃO TARDIA – Características Do Estágio De Convivência, de Niva Maria Vasques Campos.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Pó Mágico de Pirlim Pim Pim na adoção existe?


Não tenho o mesmo dom da escrita que algumas amigas do mundo adotivo, mas hoje venho escrever sobre a fábula do encantamento instantâneo que as pessoas acreditam que exista no primeiro encontro na adoção. Onde a criança vai ver os pais entrando pelo portão da instituição de abrigamento e irá (num passe de mágica) os reconhecer como seus pais e irá correndo aos seus braços, os chamando de Mamãe/Papai, em contra partida, os pais sentirão um encantamento instantâneo por aquela pequena criança e viverão felizes para sempre!!!!

PARE!!! PARE!!! PARE!!!

Adoção não é conto de fadas de Walt Disney!!!

Quando você é jovem e sonha em se casar, logo descobre que o casamento não é um mar de rosas, que terá dificuldades, lutas, paciência para ultrapassar os obstáculos que a vida ou o convívio irá impor. Então a realidade da adoção é idêntica, com a diferença que NÃO existe a porta do divórcio para a fuga! Existe ex-marido/esposa, mas NÃO existe ex-filho(a)!

A criança chegará marcada, desconfiada e logo nas primeiras semanas, irá começar a expor o que aprendeu na vida, seja a personalidade forte, desobediência, fazer artes, agressividade (física e verbal), irá falar palavrões, afinal, ninguém vai para o abrigo e depois para adoção porque tinha uma família de origem ótima, estruturada, amorosa, que só ensinaram coisas boas. Nestas primeiras fases, se os pais adotantes acreditam em encontro de almas e acham que o filho deve ser GRATO ou RECONHECER o grande ato de tê-lo adotado, o pó mágico vai ralo abaixo e a devolução é certa! Mas lembre-se, NÃO existe EX-FILHO!!!

Aos novos pais cabe ter a certeza que querem SER PAIS (isso antes de adotar), saber que esta fase é transitória e respirar fundo e partir para a luta da adaptação! Orientar, dialogar e fazê-lo ver que aquelas atitudes não são mais necessárias e que de agora adiante eles tem uma família que irá zelar por eles. Procurar ajuda psicológica, tanto para a criança, quanto aos próprios pais é fundamental. Outro fato que os pais por adoção devem se atinar, é a depressão pós-adoção, abrir mão de uma vida livre, sem grandes obrigações para outrem e passar a ter regras, normas, horários e cuidar de uma nova vida, é repleto de obstáculos e exaustivo nos primeiros meses. Nesta primeira fase, ter alguém de confiança para se abrir, ou até mesmo ter “uma folga” deixando a criança para poder ir ao cinema, ou jantar fora, é importante. Estas fases não duram dias, e sim meses! Até a criança aprender que não precisa mais ficar na defensiva, que na nova família o amor impera, junto com o dialogo, os pais necessitarão de muita paciência, preparo, união e apoio mútuo!

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Idealização, o início do fim?


Ontem em uma conversa, uma jovem senhora acabou me falando: Eu sou adotada! E ela passou a fazer o relato de sua vida... Me senti tão triste! 

A sua mãe idealizou a família, onde todos tinham o seu papel, perfeito, a ser representado... Ela era a mãe perfeita, a casa sempre estava arrumada, sempre cozinhava deliciosas comidas, os filhos sempre limpos e arrumados, não podiam se sujar, fazer bagunça, desobedecer. Ela, no entanto, sentia um grande vazio, como se não pertencesse àquele lugar, sentia que não se encaixava no contexto... Aos 9 anos, sua mãe em um momento de ira (pela filha não ter representado o papel corretamente), saiu berrando e falando algo sobre adotada... Ela então foi atrás da verdade e quando descobriu que era filha por adoção, sentiu um grande alivio, ao tirar aquela bagagem emocional de suas costas, por então compreender o porquê ela sempre sentia que não se encaixava ali! 

Não vou continuar o relato, pois o que quero abordar, o que escrevi até o momento já é suficiente...

Não vou entrar no mérito, que sempre tem que dizer sobre a condição de ser filho por adoção, mas sim na questão da idealização... Porque esta adoção não deu certo? 

Vejamos, a mãe, por não poder ter filhos, ao longo dos anos, idealizou o papel e a família que teria se um dia tivesse filhos. A idealização foi tamanha, que a mãe esqueceu o mais importante, de viver a vida!!! Dos beijos, dos abraços, da bagunça no sábado, da alegria de viver! 

Uma mulher quando engravida, não tem botões na barriga onde pode escolher a cor dos olhos do pai, a simpatia da avó, a inteligência da tia, o jeito meigo da mãe... Então, em uma gestação por adoção, a idealização é um mal maior ainda! 

Quem esta por trás dos grupos, recebem, quase semanalmente, relatos de devoluções... Os motivos? Idealização! 

O Menino não é obediente! / A menina mentia demais! / Os garotos não atenderam as minhas expectativas! / A criança fazia bagunça demais! / Não aprendia na escola! / Tinha mais carinho com o pai, fiquei com ciúmes!

IDEALIZAÇÃO! IDEALIZAÇÃO! IDEALIZAÇÃO!
IDEALIZAÇÃO! IDEALIZAÇÃO! IDEALIZAÇÃO! 

Quando você resolve ter filhos, precisa ter a consciência que haverá coisas que sairão do controle, que não será o ideal! VOCÊ terá que se remoldar para trabalhar as questões que você não estava esperando. Veja, VOCÊ é o adulto, então deve compreender que estas mudanças no SEU planejamento são necessárias! 

Nós, as Cegonhas dos grupos de apoio, estamos aqui diariamente para ajudá-los a superar os obstáculos que a vida e a convivência irá impor, mas de nada adianta estarmos aqui (abrindo mão de passar um tempo maior com as nossas famílias) se quem esta do outro lado, não deseja compreender que há coisas, que são eles, OS ADULTOS, que devem mudar, não a criança, que já tem um histórico triste de abandono, negligência e maus tratos!

domingo, 22 de novembro de 2015

Adote Uma Criança

Aderindo ao movimento pró-adoção!!!
Não precisa ser pai ou mãe adotiva e nem ser filho adotivo para dar força a esta campanha!!!

Faça sua foto pela Adoção.

Faça 'A' e Use o hashtag
‪#‎adoteumacrianca‬
‪#‎BrasilUmPaisQueAdota‬

sábado, 21 de novembro de 2015

Estágio de Convivência - o bem estar da criança ou o meu, o que importa?



Vivemos no era que tempo é dinheiro, isso é uma premissa que todos aprendemos destes pequenos e que não conseguimos esquecer... Quando crescemos, isso passa a ser mais presente na vida da gente e por isso, quando pensamos em constituir uma família, deixamos este projeto cada vez para mais tarde, afinal, não temos tempo de nos dedicar aos filhos, a carreira em 1º lugar.


Quando optamos pela adoção, levamos a premissa (Tempo é dinheiro) com a gente e esquecemos que a criança NÃO é um HD, onde podemos fazer um becape, formatar e reprogramar, por isso o estágio de convivência é tão importante.

Muitos são os habilitados que se barram no estágio de convivência, achando que deveria ir ao abrigo pegar e levar para casa, acreditando que atendendo as necessidades básicas como alimentação, abrigo e proteção é suficiente, esquecem que o núcleo de confiança da criança esta nos contatos diários dela, o abrigo, a mãe social, a enfermeira, a cozinheira, a cuidadora, a monitora, querem desrespeitar o tempo que a criança necessita de se adaptar, confiar, amar aquelas novas pessoas que serão sua família...

A criança, por menor que seja, tem uma historia que carrega com si, dar este tempo é respeitar a criança com individuo único e independente. Obvio, que quanto menor a criança, menor será o tempo de estágio de convivência, mas ele se faz necessário para todas, inclusive bebês. Desta forma, evita-se estresse e problemas desnecessários, que o próprio adulto pode causar com uma pressa desnecessária. 

É importante ressaltar que as influências que o meio e a família têm para a saúde mental e física da criança, por isso o tempo de convivência - pré adoção - é indispensável, para que o vínculo familiar se forme gradualmente, com laços de confiança e amor, vínculo seguro, estruturado e permanente!

Diferença de Idade... Vamos pensar sobre isso?


Todos sabem que sou mãe por adoção de 2 crianças. O que nunca comentei é que quando resolvi adotar sempre pensei na idade da criança...

Pode ser preconceito e/ou planejamento meu, classifique como quiser, mas sempre quis que meus filhos tivessem idade compatível com a minha, pois quando eu estivesse com 60 anos, meus filhos já fossem adultos, necessitando menos de mim.

Supondo que eu fosse mãe biológica do S., ele teria nascido quando eu tinha 26 anos e a J. aos 34 anos... Então, quando eu me aposentar aos 56 anos, ambos já terão mais de 20 anos, ou seja, na MINHA opinião, nossas idades são compatíveis!

Eu sei a demanda física e emocional que cada uma das idades exige de mim e do meu marido, e penso que se tivesse um bebê aos 50 anos, não teria pique, energia e paciência para aguentar tudo! Óbvio, que tem mulheres aos 50 anos em plena forma física, mental e tem disposição para dar e vender, mas estes são casos isolados! 

Porque estou escrevendo tudo isso???

Muitas mulheres me escrevem querendo informações sobre adoção... São mulheres ACIMA dos 40 anos, que ainda sonham com um bebê de 1-2 anos, mas será que elas pensam em longo prazo???

Vejam, entre elas começarem a habilitação, até a adoção de fato, vai levar (em media) 6-7 anos, quantos anos elas terão até que seus filhos cheguem a independência???

Muitos vão me condenar por esta postagem, mas o que quero fazer é colocar esta interrogação dentro de cada uma destas pessoas! Há tantos adolescentes aptos à adoção e/ou crianças “um pouco mais velhas”...

Queremos realizar uma nova adoção daqui há 8 anos, quando o nosso S. já terá 18 anos, mas já decidimos, será adoção de adolescente acima de 13 anos!

O que posso falar?
É que realizar adoção tardia, é tão gratificante quando adotar bebê e falo isso com conhecimento de causa, já que fiz as duas adoções!

Como falou a Helena Silva em um grupo à adoção -"É realmente maravilho não ser velho aos 75 anos. É realmente trágico ser velho demais aos 9." - Ou seja, muito me escreveram falando do pre-conceito desta postagem quando a fiz nos grupos de apoio, o quanto os candidatos se sentem jovem e dispostos, mesmo após aos 40 anos, mas esquecem o quanto são preconceituosos com crianças e jovens acima dos 7 anos, as taxando de velhas demais para serem adotadas! 

Acho que vale uma reflexão das pessoas!

Como Funciona a Fila de Adoção?


Creio que todos que militam em prol da adoção, já receberam inúmeros questionamentos de como funciona a fila da adoção. Muitos revoltosos reclamam que, mesmo estando no CNA para adotar em todo o território nacional, nunca foram chamados e aguardam à anos seu/sua tão sonhado filho(a). 

O que os habilitados devem se atentar é que: 
1) Não adianta em colocar total disponibilidade para viagens se o perfil é para: crianças até 5 anos, saudável, branca, parda, indígena, podendo ter até 1 irmão dentro do mesmo perfil. Com este perfil, somente adota na própria comarca.

2) Não adianta colocar total disponibilidade para viagens se o perfil é para: Menina até 8 anos, sem irmãos, saudável. Com este perfil, somente adota na própria comarca.

O perfil passa a ficar interessante para busca ativa quando:

Aceita-se crianças somente saudável, mas... Aceita grupos de no minimo 3 irmãos e crianças acima de 8 anos no grupo. 

Aceita-se Menina ou Menino, mas... acima de 8 anos, sozinho(a), qualquer etnia. 

Aceita-se duas crianças, mas... o mais velho pode ter acima de 7 anos e de qualquer etnia.

Aceita-se somente uma criança até 6 anos, mas... de etnia indiferente e com algum comprometimento leve intelectual ou físico*
* Crianças de qualquer etnia, saudável até 6 anos, sozinha, independente de sexo, há habilitados na própria comarca para elas. 

Aceita-se crianças somente brancas, mas... portadoras de: SAF, PC, SD e outros comprometimentos intelectuais. 
Exemplo 1)
Exemplo 2)


Está é a realidade do mundo adotivo. É triste, mas quem está do outro lado, fazendo buscas ou trabalhando nas VIJ sabe bem disso!


sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Nossa História...




Falar de Adoção é Muito fácil para mim, sou uma entusiasta do tema, mas poucos sabem o quanto chorei quando resolvi tornar o sonho em realidade!

Deste que me lembro, sempre falei que quando crescesse iria adotar, minha mãe nunca deu bola, coisa de criança, era assim definido! Os anos passaram, mas a certeza que meus filhos não viriam da barriga era certa! Foquei em estudar, formar e arrumar um bom emprego. Aos 26 anos deixei claro para a minha família, se até os 30 anos não me casar, partirei para a adoção sozinha!

Dois anos depois conheci meu marido, um homem tranquilo que não se importava com a questão de sangue, que tinha diversos casos de adoção na família e para ele o tema era corriqueiro e tranquilo... Casamos logo depois e nos concentramos em conseguir a casa própria, deixando o sonho da adoção para mais tarde, depois de 4 anos de casados ele me propôs, durante as férias em Natal, que aumentássemos a família, que eu me informasse sobre o processo de adoção para darmos entrada no próximo ano e que planejássemos uma adoção para dali 2 anos - Nada de pressa, temos tempo! - lembro que ele me disse! Assim que voltamos liguei para o fórum da minha cidade e recebi um balde de água fria, para o perfil desejado por nós na época (menina, qualquer etnia, entre 4 e 6 anos) a espera era em média de 5 anos! Nunca nos sentimos tão triste, mas resolvemos aproveitar o restinho das férias para ajeitar tudo e dar entrada, já que a espera seria longa, era melhor entrar o quanto antes!

Acho que o sentimento que a gente tem nesta época de habilitação, é a mesma que um casal tem quando esta tentando engravidar e o positivo nunca vem... Só que o nosso POSITIVO, é o nosso cadastro na lista do CNA!

Lembro que me senti muito frustrada neste processo inicial, na nossa comarca não tinha curso na época e dependíamos da comarca vizinha, tinha as férias do meio do ano e tudo parava... Tinha a férias do final de ano, e tudo parava... Os meses passaram... Vimos diversas crianças entrarem e saírem da busca ativa nos grupos que participávamos, nosso perfil mudou ao longo dos meses, mudamos para 2 crianças, qualquer sexo, qualquer etnia e até 8 anos. Lembro que foi a única vez que pensamos em partir para uma gravidez “normal” - apesar de ter sabido de um menino que estava para adoção e sem pretendentes (devido à idade e histórico), até chegamos a mandar um e-mail, mas as semanas passaram e sem resposta. - Então resolvemos marcar uma consulta com uma geneticista, para saber qual era a porcentagem de chances de termos um filho com má formação, já que nasci com lábio leporino, para o caso da habilitação ser negada, seria nosso PLANO B!

Lembro que viajamos em silencio até Bauru/SP, quando entrei no consultório, meu marido não quis entrar, para que eu me sentisse mais a vontade com ela, ela já tinha todo meu histórico e exames, então seria mais para ter um veredito, que para trocar uma ideia... 7% de chances, mesmo em uma fecundação assistida, pouco para a grande maioria, mas uma porcentagem gigante para quem é de exatas! Quando que sai do consultório, pensando em como iria falar para meu marido que não exista um plano B, encontrei na sala de espera um homem extasiado e eufórico! Ligaram, eles ligaram!!! Ligaram sobre o Samuel!!! Ali senti que era um sinal de Deus, que estávamos no caminho certo, que nosso filho estava perto de nós, bastávamos não desistirmos e sermos mais persistentes! Não poderíamos adota-lo ainda, já que não estávamos habilitados, mas como não havia habilitados interessados nele, a vara iria esperar nossa habilitação sair, mas deixaram claro: Se surgir outra pessoa habilitada antes de sair a de vocês, eles terão prioridade, pois o menino não pode ficar abrigado esperando!

Mais 3 meses de espera e a nossa habilitação saiu, em maio de 2013 entramos no CNA, o tão esperado POSITIVO tinha acontecido! A vara do nosso filho, que acompanhava tudo de longe, ligou na mesma semana, marcando a nossa ida para dali duas semanas para o estágio de convivência. Nosso parto estava marcado e seria normal, com as dores, medos e choros, sem direito a peridural, o trabalho de parto seria totalmente nosso, sem os familiares e amigos junto! As “doulas” nos ensinavam - via internet nos grupos de apoio - as técnicas de suavizar as dores e ansiedade e seguimos para buscar o nosso bebê de 8 anos, não no berçário, mas em uma VIJ, cercados de psicólogas, assistentes sociais e juiz, desta forma, nos tornamos pais de fato, pois espiritualmente já éramos a muito tempo!

Meses depois chegou a vez de ampliar a família novamente, novas dores, medos e anseios, voltamos aos CNA muito rapidamente, uma vez que quando o Sam chegou pedimos a suspensão da habilitação para nos dedicarmos somente a ele, mas a espera, esta é inimiga de quem quer ter um filho... Meses de espera, exatamente 8 meses e 4 dias contados um a um, mas desta vez tocou o meu telefone, não o do meu marido! Estava no trabalho e lá vem, a informação - Uma menina, negra, 1 ano e 2 meses, com má formação tratável, quer ou não quer? Eu quero, mas tenho que falar com o meu marido, posso te responder um pouco mais tarde? - Confesso que não lembro como cheguei em casa, lembro de entrar e me encostar no balcão e o encarar do outro lado da cozinha ele já com os olhos cheio de lagrimas falou: Nossa filha chegou! Nossa Neguinha!

Acreditamos que tudo seria rápido, faltavam poucos dias para o Natal e com certeza a juíza iria querer que fossemos busca-la dali 2 ou 3 dias, novo balde de água fria, parto marcado somente janeiro de 2015, próximo ano, uma espera angustiante, mas foi necessária e providencial para prepararmos tudo!

Lembro como se fosse hoje, a ansiedade na viagem de ida, o Samuel fez questão de ir junto... A primeira visita ao abrigo o Sam não foi, ficou com os tios... entramos no abrigo, sentamos na sala de espera, entrevista com a psicóloga do abrigo e foram buscá-la, a enfermeira entrou e eu não consegui ter qualquer reação, fiquei abismada, a achei minúscula para ter 1 ano e 3 meses, fiquei apavorada de pega-la e derrubar, meu marido então tomou a dianteira, já aconchegando nossa filha Júlia no colo!

Assim nossos partos foram concluídos, um cheio de emoção, às pressas e outro calmo e tranquilo... Se teremos um 3º parto? Provavelmente sim!

ATUALIZANDO...

Em 15 dezembro de 2016 meu telefone toca às 15:10h, já no identificador reconheço o numero do telefone da nossa comarca, imaginando se tratar de um pedido de depoimento em algum novo curso de preparação de adoção atendo, mas logo levo um enorme susto... havia uma bebezinha de 7 meses dentro do nosso perfil, questionando se podíamos ir naquele mesmo dia na comarca para sabermos mais sobre ela. Liguei para o meu marido confirmando a disponibilidade dele e marco com a equipe para dali 2 horas. Fomos lá, eu, meu marido e o nosso filho Sam, os casais da frente a recusaram, ela tinha intolerância a lactose ou a proteína do leite, sem confirmação, prematura, no mais era saudável. 


Recusamos ver foto, perguntamos se podíamos ir naquele mesmo dia conhece-la e era nossa filha, seja qual perfil fosse! Seguimos os três a casa lar e já fazendo as contas e pensando no que deveríamos comprar, afinal a guarda  sairia no dia seguinte. Chegando ao abrigo encontramos um pacotinho branquinho como o leite, muidinha e delicadinha. Não nos estranhou, nem mesmo se assustou com as brincadeiras exageradas do irmão mais velho, naquele momento a Paula nasceu para a nossa família! 

Ali, olhado naqueles olhos questionadores e tranquilos, descobrimos que a nossa família estava completa, finalmente tínhamos nos reencontrados para traçar nossa caminhada pela vida juntos, nos apoiando mutualmente! 

A espera...


Sonho...

Sonhei em ter filhos por adoção, mas tornei o meu sonho em realidade, quando juntei ao meu sonho a realidade das crianças abrigadas! 

Ellen Tomazeti

Quem pariu Mateus que o embale... Será Verdade Isso???



Muitos ainda apontam as crianças abandonadas em abrigos e as que vivem na rua como um “Problema dos Terceiros”, futuros delinquentes, que seguirão os mesmos passos de seus genitores e passam por elas de forma rápida ou as nem enxergam...

Estas crianças vêm de famílias desestruturadas, seja pelo vicio (drogas ilícitas e álcool), seja pelo circulo vicioso de desestrutura social, ética e moral que a família vive a gerações.

Cabe sim, a sociedade, assumir esta responsabilidade de amparar, instruir e garantir um futuro menos árido a estas crianças! Enquanto não assumirmos esta responsabilidade esta chaga da sociedade não irá sarar, continuaremos neste circulo de violência, agressividade e abandono.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Perfil desejado e perfil possível, adoção é igual parir?


Hoje vim falar um pouquinho que aprendi nestes 3 anos de mundo adotivo... Perfil! 

Óbvio que o perfil tem que ser respeitado para que a adoção seja concretizada de forma mais tranquila, mas que muitos não falam nos texto é sobre o perfil das crianças aptas à adoção. 

Muitas são as pessoas que me escrevem reclamando da demora em adotar, mesmo tendo perfil amplo... Logo desconfio que este perfil amplo tenha algumas restrições que o torna um perfil restritivo. Converso, vou questionando e por incrível que pareça, muitas são as pessoas que não aceitam filhos de drogaditas, alcoólatras, problemas mentais... Muitos fazem a exigência que a criança seja órfã! Isso sem falar que tem que ser branco ou - no máximo - “pardo claro”!

Então, faço duas perguntas a todos que continuam na espera para reflexão:

1) Por que você acha que as crianças são abrigadas? 
2) Qual o perfil físico destas crianças?

Posso adiantar que por motivo de entrega consciente e por orfandade não chega a 1% das crianças abrigadas hoje no Brasil e que a grande maioria são pardos (pardo de verdade, pardo claro não existe)! 

O que o habilitado ou candidato a adoção deve lembrar que parir é MUITO diferente de adotar. Não tem como adotar um filho idêntico ao pai e/ou com o sorriso da mãe, onde os genitores fizeram o pré-natal, que a criança foi amada e cuidada deste a sua fecundação, muito pelo contrário, a grande maioria das crianças foram expostas a uma vivência de vida pesada, deste a sua fecundação, carregam traumas físicos e emocionais, não foram desejadas e muito menos amadas... 

Quem opta por uma adoção, deverá ter amor de sobra para ensinar a estas crianças que a vida pode e deve ser diferente, que o amor incondicional existe! 

Para quem deseja adotar, deve lembrar sempre da frase da Dra Lidia Weber - “Adotar é acreditar que a história é mais forte que a hereditariedade, que o amor é mais forte que o destino"!

Sugestões de Livros Sobre Adoção Para Crianças








A conta não fecha... De quem é a culpa?


É tão comum achar reportagens e mais reportagem culpando os habilitados pelo não fechamento da conta na hora da adoção. Normalmente achamos os seguintes dados: 60 mil habilitados para 5 mil crianças aptas para adoção! A culpa é dos habilitados, pronto! 

Do outro lado, habilitados que não aceitam a culpa, se dizem injustiçados, pois possuem perfil amplo (qualquer etnia, qualquer sexo) até 5 anos. Que a culpa é do judiciário, que leva anos para destituir do poder familiar, para então disponibilizar para adoção. 

Hoje (29/06) O Globo postou uma reportagem (Demora da Justiça faz criança perder chance de adoção) onde diz o seguinte:

“...Um estudo elaborado a pedido do Conselho Nacional de Justiça mostra que uma criança só é colocada para adoção após quatro anos, em média, nas principais cidades de três regiões do país (Norte, Centro-Oeste e Sul). No Sudeste, o processo de perda do poder familiar dura, em média, três anos e três meses. Recife, a representante do Nordeste no estudo, é a única cidade onde esse processo leva menos de um ano. São, em média, nove meses – ainda assim, muito superior ao que preconiza a nova Lei de Adoção, aprovada há mais de cinco anos, que estipula um teto de 120 dias para a conclusão do procedimento...” 

Óbvio que a Justiça tem culpa, seja porque na grande maioria das cidades NÃO há varas especificas de infância e juventude para tratar do assunto com prioridade, tendo que dividir com a vara civil e às vezes, criminal, seja porque as equipes são pequenas e não dão conta da demanda de agilizar os processos. Isso é FATO! Não se discute isso! Sim, o judiciário tem sua parcela (alta por sinal) de culpa!

Mas cabe aos habilitados sentar também no “cantinho do pensamento” e assumir suas responsabilidades! 

Nós habilitados??? 

Sim, todos os habilitados que restringem o perfil para até 5 anos, sem irmãos, saudável tem culpa da conta não fechar!!! 

TODOS sabem que a grande maioria das crianças já chegam aos abrigos em media nesta idade, às vezes um pouco mais ou menos e a grande maioria tem irmãos! 

Algumas varas, vendo a dificuldade de adoção destas crianças, aceitam separar, mas sempre como ULTIMO recurso, esta na lei, que deve se tentar de todas as formas (incluindo adoção internacional), a permanência de um grupo de irmãos na mesma família, não é o juiz enrolando para colocar as crianças para adoção, é lei! 

Ah! Mas no abrigo que fui visitar, tem um monte de bebês! E eles? 

Tem sim, um monte de abrigos com bebês! Então vamos às hipóteses: 
1) Mãe drogatícia ou maus tratos por virtude de depressão ou uso de drogas, em fase de tratamento e sem família extensa para assumir a guarda. Aguardando estudo psicossocial sobre a evolução dos tratamentos.
2) Abandono em maternidade, necessário investigação de possível família extensa, para posterior processo de DPF. Tempo médio de 1 ano entre investigação e DPF, caso seja necessário. 
3) Família em dificuldades (morador de rua, desempregado e sem recursos), abriga a criança até a família se reestruturar e poder assumir a guarda. 
4) Criança apta a adoção, mas sem pretendentes, uma fez que foi exposta ao vírus do HIV, sífilis congênita, toxoplasmose, filhos de usuários de drogas, filho de estupro, entre outras possibilidades. 
5) Criança com diagnostico não fechado para problemas neurológicos, sem conhecimento sobre as extensões dos problemas de saúde e o que isso vai representar ao longo de sua vida. 
6) E o um dos mais comuns motivos... Tem mais 3 irmãos, entre 4 e 13 anos, então não há adotantes brasileiros para o quarteto. Cadastrado para adoção internacional. 

Então... Nenhum juiz vai sair por aí, "tirando" o poder familiar de famílias, sem qualquer ordem e bom senso, somente para dar para adoção e agilizar a fila!

Os habilitados conhecem a realidade das crianças abrigadas, então de nada adianta saber que raramente há bebês, brancos, saudáveis, sem irmãos para adoção e insistir em tem um perfil assim e reclamar da demora! 

Vamos no colocar no “cantinho do pensamento” e assumir que, uma vez que a gente só aceita crianças saudáveis, até 5 anos e sem irmãos, a gente tem culpa pela conta não fechar?!?

Eu aceito a "minha parcela de mea-culpa”, quando exclui do meu perfil adolescentes!