Falar de Adoção é Muito fácil para mim, sou uma entusiasta do tema, mas poucos sabem o quanto chorei quando resolvi tornar o sonho em realidade!
Deste que me lembro, sempre falei que quando crescesse iria adotar, minha mãe nunca deu bola, coisa de criança, era assim definido! Os anos passaram, mas a certeza que meus filhos não viriam da barriga era certa! Foquei em estudar, formar e arrumar um bom emprego. Aos 26 anos deixei claro para a minha família, se até os 30 anos não me casar, partirei para a adoção sozinha!
Dois anos depois conheci meu marido, um homem tranquilo que não se importava com a questão de sangue, que tinha diversos casos de adoção na família e para ele o tema era corriqueiro e tranquilo... Casamos logo depois e nos concentramos em conseguir a casa própria, deixando o sonho da adoção para mais tarde, depois de 4 anos de casados ele me propôs, durante as férias em Natal, que aumentássemos a família, que eu me informasse sobre o processo de adoção para darmos entrada no próximo ano e que planejássemos uma adoção para dali 2 anos - Nada de pressa, temos tempo! - lembro que ele me disse! Assim que voltamos liguei para o fórum da minha cidade e recebi um balde de água fria, para o perfil desejado por nós na época (menina, qualquer etnia, entre 4 e 6 anos) a espera era em média de 5 anos! Nunca nos sentimos tão triste, mas resolvemos aproveitar o restinho das férias para ajeitar tudo e dar entrada, já que a espera seria longa, era melhor entrar o quanto antes!
Acho que o sentimento que a gente tem nesta época de habilitação, é a mesma que um casal tem quando esta tentando engravidar e o positivo nunca vem... Só que o nosso POSITIVO, é o nosso cadastro na lista do CNA!
Lembro que me senti muito frustrada neste processo inicial, na nossa comarca não tinha curso na época e dependíamos da comarca vizinha, tinha as férias do meio do ano e tudo parava... Tinha a férias do final de ano, e tudo parava... Os meses passaram... Vimos diversas crianças entrarem e saírem da busca ativa nos grupos que participávamos, nosso perfil mudou ao longo dos meses, mudamos para 2 crianças, qualquer sexo, qualquer etnia e até 8 anos. Lembro que foi a única vez que pensamos em partir para uma gravidez “normal” - apesar de ter sabido de um menino que estava para adoção e sem pretendentes (devido à idade e histórico), até chegamos a mandar um e-mail, mas as semanas passaram e sem resposta. - Então resolvemos marcar uma consulta com uma geneticista, para saber qual era a porcentagem de chances de termos um filho com má formação, já que nasci com lábio leporino, para o caso da habilitação ser negada, seria nosso PLANO B!
Lembro que viajamos em silencio até Bauru/SP, quando entrei no consultório, meu marido não quis entrar, para que eu me sentisse mais a vontade com ela, ela já tinha todo meu histórico e exames, então seria mais para ter um veredito, que para trocar uma ideia... 7% de chances, mesmo em uma fecundação assistida, pouco para a grande maioria, mas uma porcentagem gigante para quem é de exatas! Quando que sai do consultório, pensando em como iria falar para meu marido que não exista um plano B, encontrei na sala de espera um homem extasiado e eufórico! Ligaram, eles ligaram!!! Ligaram sobre o Samuel!!! Ali senti que era um sinal de Deus, que estávamos no caminho certo, que nosso filho estava perto de nós, bastávamos não desistirmos e sermos mais persistentes! Não poderíamos adota-lo ainda, já que não estávamos habilitados, mas como não havia habilitados interessados nele, a vara iria esperar nossa habilitação sair, mas deixaram claro: Se surgir outra pessoa habilitada antes de sair a de vocês, eles terão prioridade, pois o menino não pode ficar abrigado esperando!
Mais 3 meses de espera e a nossa habilitação saiu, em maio de 2013 entramos no CNA, o tão esperado POSITIVO tinha acontecido! A vara do nosso filho, que acompanhava tudo de longe, ligou na mesma semana, marcando a nossa ida para dali duas semanas para o estágio de convivência. Nosso parto estava marcado e seria normal, com as dores, medos e choros, sem direito a peridural, o trabalho de parto seria totalmente nosso, sem os familiares e amigos junto! As “doulas” nos ensinavam - via internet nos grupos de apoio - as técnicas de suavizar as dores e ansiedade e seguimos para buscar o nosso bebê de 8 anos, não no berçário, mas em uma VIJ, cercados de psicólogas, assistentes sociais e juiz, desta forma, nos tornamos pais de fato, pois espiritualmente já éramos a muito tempo!
Meses depois chegou a vez de ampliar a família novamente, novas dores, medos e anseios, voltamos aos CNA muito rapidamente, uma vez que quando o Sam chegou pedimos a suspensão da habilitação para nos dedicarmos somente a ele, mas a espera, esta é inimiga de quem quer ter um filho... Meses de espera, exatamente 8 meses e 4 dias contados um a um, mas desta vez tocou o meu telefone, não o do meu marido! Estava no trabalho e lá vem, a informação - Uma menina, negra, 1 ano e 2 meses, com má formação tratável, quer ou não quer? Eu quero, mas tenho que falar com o meu marido, posso te responder um pouco mais tarde? - Confesso que não lembro como cheguei em casa, lembro de entrar e me encostar no balcão e o encarar do outro lado da cozinha ele já com os olhos cheio de lagrimas falou: Nossa filha chegou! Nossa Neguinha!
Acreditamos que tudo seria rápido, faltavam poucos dias para o Natal e com certeza a juíza iria querer que fossemos busca-la dali 2 ou 3 dias, novo balde de água fria, parto marcado somente janeiro de 2015, próximo ano, uma espera angustiante, mas foi necessária e providencial para prepararmos tudo!
Lembro como se fosse hoje, a ansiedade na viagem de ida, o Samuel fez questão de ir junto... A primeira visita ao abrigo o Sam não foi, ficou com os tios... entramos no abrigo, sentamos na sala de espera, entrevista com a psicóloga do abrigo e foram buscá-la, a enfermeira entrou e eu não consegui ter qualquer reação, fiquei abismada, a achei minúscula para ter 1 ano e 3 meses, fiquei apavorada de pega-la e derrubar, meu marido então tomou a dianteira, já aconchegando nossa filha Júlia no colo!
Assim nossos partos foram concluídos, um cheio de emoção, às pressas e outro calmo e tranquilo... Se teremos um 3º parto? Provavelmente sim!
ATUALIZANDO...
Em 15 dezembro de 2016 meu telefone toca às 15:10h, já no identificador reconheço o numero do telefone da nossa comarca, imaginando se tratar de um pedido de depoimento em algum novo curso de preparação de adoção atendo, mas logo levo um enorme susto... havia uma bebezinha de 7 meses dentro do nosso perfil, questionando se podíamos ir naquele mesmo dia na comarca para sabermos mais sobre ela. Liguei para o meu marido confirmando a disponibilidade dele e marco com a equipe para dali 2 horas. Fomos lá, eu, meu marido e o nosso filho Sam, os casais da frente a recusaram, ela tinha intolerância a lactose ou a proteína do leite, sem confirmação, prematura, no mais era saudável.
Recusamos ver foto, perguntamos se podíamos ir naquele mesmo dia conhece-la e era nossa filha, seja qual perfil fosse! Seguimos os três a casa lar e já fazendo as contas e pensando no que deveríamos comprar, afinal a guarda sairia no dia seguinte. Chegando ao abrigo encontramos um pacotinho branquinho como o leite, muidinha e delicadinha. Não nos estranhou, nem mesmo se assustou com as brincadeiras exageradas do irmão mais velho, naquele momento a Paula nasceu para a nossa família!
Ali, olhado naqueles olhos questionadores e tranquilos, descobrimos que a nossa família estava completa, finalmente tínhamos nos reencontrados para traçar nossa caminhada pela vida juntos, nos apoiando mutualmente!