quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Poema: Adoção

ADOÇÃO

Ninguém apareceu quando eu chorei,
Então, eu mais e mais berrei.
... Num dia eu nem sequer estava acordado,
Mas alguém me arrancou do berço e fui despertado

Estava com fome e não me alimentaram.
Estava com frio e não me agasalharam.
Senti minha fralda sujar,
Mas ninguém veio me limpar.

Precisei de colo e carinho,
Eventualmente tive, mas tão pouquinho.
Muitas vezes ouvi gritos, coisas quebrando.
Ficava assustado, fui me inquietando.

Achei que não era digno de se amado.
Passei a não gostar de mim, vivia machucado.
Parecia que eu queria me castigar,
Por ser tão mau, tão feio, impossível de amar.

Comecei a apanhar cada vez que chorava.
Gritavam comigo só porque eu acordava.
Um dia todos sumiram, fiquei desesperado!
A casa ficou quieta, acho que fui abandonado.

Depois disso perdi a noção
De quanto tempo berrei em vão.
Acho que muitas vezes acordei e dormi,
Até que a porta abriu e vozes ouvi.

Eram pessoas que eu não conhecia,
Mas me limparam e, em seus olhos, eu via
Que eram diferentes, não demonstravam me odiar...
Levaram-me para um lugar em que o sol parecia brilhar.

Lá eu ficava limpo e comia
E alguém sempre me sorria.
Tinha muita criança que, como eu,
Acho que também chorou e sofreu.

Vi algumas crianças sendo levadas,
Por pessoas que pareciam ser abençoadas.
Talvez um dia eu também seja levado,
...Só espero aprender a ser amado.

Marta W. Yamaoka
Publicação no Jornal O Estado (Fortaleza-Ceará) em 24.12.2012

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