Hoje vou fugir do tema adoção,
mas me mantenho no tema relação pais/filhos.
Existe nas mídias o questionamento
sobre a liberação do short em uma escola no Rio Grande do Sul, sem entrar no mérito
da questão, pois já adianto que sou contra a liberação, vou usar o tema para
levantar o questionamento sobre o que estamos ensinando a esta nova geração.
Nós, acima dos 35 anos, fomos
criados em uma época que nossos pais sofriam mazelas, crise econômica,
dificuldade em acumular bens, manter o emprego, alta inflação, escassez de gás
e leite... Tudo era regrado, limitado. Tínhamos que inventar nossas
brincadeiras, nossos brinquedos. Televisão era para poucos e mesmo assim
limitado, pois o preço da energia era altíssimo. Nossos pais não tinham carro
do ano, era um velho fusca, uma variante ou brasilia, que era usado apenas nos
passeios de domingo, ir à igreja. Cinema era coisa de adolescentes que já
tinham conseguidos empregos ou estágios, namorar somente com permissão e no sofá
da sala. Ir para a balada só com consentimento dos pais, com um irmão ou primo
mais velho e tinha hora para voltar. Tínhamos que saber, já com 8 anos, a se
comportar à mesa, não interromper os mais velhos, não falar palavrão, manter o material
organizado, dividíamos as tarefas de casa... A escola? Os professores eram
autoridade e aí de nós se tivesse uma reclamação da escola, era consequência
séria na certa.
Crescemos achando que nossos pais
eram malvados, professores retrógrados, sociedade arcaica, mas crescemos, a
grande maioria se formou e nos tornamos a 1ª geração que conseguiu abrir as
portas das universidades públicas para os filhos de famílias mais pobres, sem
uso de bolsa, ou estimulo de financiamento. Escutávamos dos nossos pais: “Quer fazer
faculdade meu filho, então estude para passar em uma pública, pois não temos
como pagar uma particular!” E com muito estimulo dos nossos pais e um grande
esforço nosso, conseguimos chegar às universidades, quando pagas, era por nós
mesmos, que trabalhávamos de dia para estudar à noite. Tudo isso por que queríamos
ter mais que nossos pais, para poder fornecer aos nossos filhos muito mais que recebemos,
uma vida de pouca ou nenhuma privação.
Aí criamos uma geração que jovens
com muitos direitos e poucos deveres. Todos tem a obrigação de atendê-los, mas
nenhuma obrigação de se esforçar. Pais vivem com medo de corrigirem seus filhos
por medo de conselhos tutelares, escolas que não podem suspender alunos que
estão com má conduta, polícias que não podem fazer uma revista em um
adolescente que acredita que estar com drogas, pois tudo pode dar margem para uma
má interpretação e acusação de abuso.
Jovens (que estão cada vez mais
velhos usando este estereótipo) que acreditam que os pais tem obrigação de
prover, não apenas o sustento, educação e saúde, mais uma vida na qual o jovem
não tem por que ter, já que não a conquistou - viagens com amigos, cinema com a
turma, roupa da moda, lanches no local da moda, celular de última geração - acreditam
que levantar a voz, berrar, xingar e falar em processo, resolverá tudo. Geração
que pode humilhar, infligir regras, normas e tá tudo certo. Tudo e todos estão cerceando
seus direitos, mas esquecem de que uma vida em sociedade é feita de normas, lutas,
metas, objetivos e conquistas.
Estes “jovens” são filhos de pais
batalhadores, que tiveram que lutar para conquistar tudo, que não conseguiram nada
de graça ou facilmente, pais que convivem com uma frustação permanente de que
não fizeram o bastante.
Vou deixar claro, eles fizeram
demais ao deram curso de inglês, francês, aula de piano, natação, balé. Deixaram
de falar não, não brigaram e não deixaram de castigo. Deram celulares para
crianças que mal sabiam escrever, ensinaram a ligar, mandar mensagem, entrar na
internet e a encontrar o assunto do trabalho com dois cliques, também
permitiram que estes mesmos filhos mostrassem como as suas vidas são lindas,
como são felizes e como eles possuem tudo no faz de conta das redes sociais, ensinaram
a disfarçar bem seus medos, suas tristezas e seus anseios, aí entraram em uma
competição (nada escolar) de quem tem mais, quem é mais feliz, e os pais que se
esforcem para manter os filhos felizes eternamente no faz de conta da vida!
Mas vou colocar o dedo nas
feridas de cada um destes pais, eles fizeram muito pouco por seus filhos, eles
não fizeram o BÁSICO! Não ensinaram a respeitar os mais velhos, a esperar o
adulto terminar de falar antes de questionar algo, a chamar os mais velhos de
senhor/senhora, a comer de forma moderada, não ensinaram a respeitar os mais
velhos, aos professores, as normas de sociedade, que as coisas não são descartáveis,
que tudo e todos têm valor. Não ensinaram que para tudo tem hora e local certo,
que a vida não é feita de selfies e clicks na internet, esqueceram-se de
ensinar seus filhos que a vida é feita de vitorias e frustações, e quantas
frustações!!!
Os pais esqueceram o principal, de
que devemos criar os filhos para o mundo, não para nós!

Melhor texto que li nos últimos anos... Espero conseguir lutar contra a maré e não ser um desses "pais"...
ResponderExcluirExcelente texto. Sábias palavras!
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