terça-feira, 24 de novembro de 2015

Idealização, o início do fim?


Ontem em uma conversa, uma jovem senhora acabou me falando: Eu sou adotada! E ela passou a fazer o relato de sua vida... Me senti tão triste! 

A sua mãe idealizou a família, onde todos tinham o seu papel, perfeito, a ser representado... Ela era a mãe perfeita, a casa sempre estava arrumada, sempre cozinhava deliciosas comidas, os filhos sempre limpos e arrumados, não podiam se sujar, fazer bagunça, desobedecer. Ela, no entanto, sentia um grande vazio, como se não pertencesse àquele lugar, sentia que não se encaixava no contexto... Aos 9 anos, sua mãe em um momento de ira (pela filha não ter representado o papel corretamente), saiu berrando e falando algo sobre adotada... Ela então foi atrás da verdade e quando descobriu que era filha por adoção, sentiu um grande alivio, ao tirar aquela bagagem emocional de suas costas, por então compreender o porquê ela sempre sentia que não se encaixava ali! 

Não vou continuar o relato, pois o que quero abordar, o que escrevi até o momento já é suficiente...

Não vou entrar no mérito, que sempre tem que dizer sobre a condição de ser filho por adoção, mas sim na questão da idealização... Porque esta adoção não deu certo? 

Vejamos, a mãe, por não poder ter filhos, ao longo dos anos, idealizou o papel e a família que teria se um dia tivesse filhos. A idealização foi tamanha, que a mãe esqueceu o mais importante, de viver a vida!!! Dos beijos, dos abraços, da bagunça no sábado, da alegria de viver! 

Uma mulher quando engravida, não tem botões na barriga onde pode escolher a cor dos olhos do pai, a simpatia da avó, a inteligência da tia, o jeito meigo da mãe... Então, em uma gestação por adoção, a idealização é um mal maior ainda! 

Quem esta por trás dos grupos, recebem, quase semanalmente, relatos de devoluções... Os motivos? Idealização! 

O Menino não é obediente! / A menina mentia demais! / Os garotos não atenderam as minhas expectativas! / A criança fazia bagunça demais! / Não aprendia na escola! / Tinha mais carinho com o pai, fiquei com ciúmes!

IDEALIZAÇÃO! IDEALIZAÇÃO! IDEALIZAÇÃO!
IDEALIZAÇÃO! IDEALIZAÇÃO! IDEALIZAÇÃO! 

Quando você resolve ter filhos, precisa ter a consciência que haverá coisas que sairão do controle, que não será o ideal! VOCÊ terá que se remoldar para trabalhar as questões que você não estava esperando. Veja, VOCÊ é o adulto, então deve compreender que estas mudanças no SEU planejamento são necessárias! 

Nós, as Cegonhas dos grupos de apoio, estamos aqui diariamente para ajudá-los a superar os obstáculos que a vida e a convivência irá impor, mas de nada adianta estarmos aqui (abrindo mão de passar um tempo maior com as nossas famílias) se quem esta do outro lado, não deseja compreender que há coisas, que são eles, OS ADULTOS, que devem mudar, não a criança, que já tem um histórico triste de abandono, negligência e maus tratos!

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