Ontem fez 8
meses que nossa filha caçula chegou. Não falei muito da adoção dela no inicio,
pq entendi que era um momento de recolhimento, mas agora resolvi escrever como
foram os momentos iniciais.
No dia 15 de
dezembro de 2016 às 15:10h o telefone celular tocou, estava no trabalho, tinha
acabado de voltar ao trabalho depois de uma licença medica surpresa, tinha
operado a apêndice de emergência e depois de quinze dias afastada, estava
retornando ao trabalho. Reconheci logo o telefone da minha comarca, pensava que
talvez fosse um pedido de depoimento, que vira e mexe faço,
aproveitei que o cliente tinha acabado de sair para atender rapidinho até o próximo
cliente chegar. Para minha surpresa, era para informar que havia uma criança no
nosso perfil e questionando se poderíamos ir naquele dia a vara para saber mais
do caso. Questionei se podiam adiantar algo, já imaginando uma menina de uns
8/10 anos, e aí veio a informação: “Posso te dizer que é uma menina de 8 meses!”
Aí meu mundo
parou! Estão me chamando para uma bebezinha??? Oi???
Nunca, nunca
mesmo imaginei ser mãe de bebê, mesmo tendo o nosso perfil definido a idade de
0 a 8 anos, sempre pensei que com o nosso perfil seria uma mocinha a chegar
para completar nossa família. Falei que iria ligar para o meu marido e
retornaria. Sai rapidinho da minha mesa para ligar para o meu marido, ele logo
falou:
- Flor (sim, ele ainda me chama assim, mesmo com 10 anos de casados), acho que devemos falar NÃO, pq bebê menina TODOS querem e nós não temos problemas em assumir uma adoção um pouco mais especial, com deficiências ou que necessite de algum cuidado. Para esta menina certamente há um fila imensa de casais interessados, ela não ficará nem um dia a mais que o necessário no abrigo.
Concordamos em
falar não, mas pessoalmente, pq aí já pediríamos a ampliação da idade para 11
anos, idade próxima do nosso filho mais velho. Marquei de ir à vara no final do dia para conversarmos, fomos prontos e certos da nossa decisão
em NÃO ACEITAR a bebê e mudarmos o perfil para uma pré-adolescente.
Chegamos lá e
fomos apresentados ao caso, uma menina, exposta ao HIV (com os exames apontando
para a negativação) e com suspeita de ser intolerante a lactose (tomava leite
especial). Nós olhamos e conversamos rapidamente pelo olhar (temos este dom) -
ok, será fácil de esta menina achar uma família. Podemos falar não! – “Os casais
que estão na frente falaram não e como a comarca entrará em recesso na próxima segunda,
estamos buscando uma família que a possa adotar até amanhã! “
Ops, pq os casais
na frente falaram não??? Meu pensamento, que é rápido como flecha, já elaborou
um motivo, deve ser negra! Afinal estamos em um município de italianos, deve
ser isso! Qual é a etnia
dela? “Branca!” Surpresa total!!!
Pode me falar
qual é o nome dela? Aí o coração palpitou rápido, ela tinha o mesmo nome que eu
e meu marido falávamos que daríamos se tivéssemos uma filha, um nome
dos anjos. Eu e meu marido, naquela conversa silenciosa do olhar já sabíamos que
o “NÃO” aquela altura já tinha ido por água abaixo! O nome e o fato de ser
rejeitada pelos casais que estavam na nossa frente, foi o sinal de que a
pequena era para ser nossa!
- Em que abrigo ela está? Podemos
conhecê-la hoje?
- Não querem ver a foto dela
antes?
- Não, isso não nós importa!
Saímos ansiosos
e fomos para o lado oposto do nosso município e encontramos, enrolada em
mantinhas naquele fim de dia frio, uma pititica branquinha como leite e ficamos
sem acreditar como as pessoas foram capazes de dizer não para ela! Sim, sei que
nós tb quase falamos não, mas não pelo seu histórico, mas pelo fato de
acreditarmos que seria muito fácil ela achar uma família, mas o passado do qual
ela não tinha nenhuma culpa ou controle, a condenada. Aquele olhar esperto, que
tentava entender o pq daqueles dois estranhos falavam engraçado e pq aquele
menino (nosso filho mais velho) fazia palhaçada na frente dela, tentando roubar
um sorriso, nós conquistou e roubou nosso coração!
Sair de lá foi
difícil, doeu o coração em ter que deixa-la mais um dia no abrigo, mas saímos de
lá, com a certeza de que a nossa filha brevemente estaria com a gente, que
enfim tínhamos nos reencontrados.
No dia
seguinte foi uma loucura, informei a minha chefia que iria emendar a licença
medica com a licença maternidade e que eu voltaria dali 6 meses, pois minha
filha tinha nascido para nós no final do dia anterior, trabalhei o dia todo
fazendo mil planos - passar na loja mandar colocar um berço no carro, pegar o
marido em casa, ir à vara assinar a guarda, ir para o abrigo e finalmente ir
para casa - sim, não teríamos aproximação por conta do recesso, seria um parto rápido,
sem muito tempo para nada. Aquele dia demorou a passar, tenho a sensação que cada
1 hora foi o equivalente a trabalhar 3 tamanha a ansiedade! Rssss
Nossa filha
não nos deu sossego por muito tempo, logo nos primeiros dias ela apresentou
varicela, tivemos que manter nosso dois outros filhos na casa da avó, para
evitar contaminação, Natal e Ano Novo fiquei longe dos meus outros filhos, só
meu marido indo vê-los. Dias longos, dormindo pouco, com ela largada com tanta
febre e no colo 24 horas, único lugar que ela se sentia tranquila para
descansar. Depois de mais de 10 dias começou a melhorar... Uma pequena folga, aí
começaram os problemas de conjuntivite e problemas respiratórios, cuidados e tratamentos...
Melhoras, pequenos problemas de saúde, melhoras e pioras, acabou que virou um
ciclo. Passamos a ficar alertar e assim os meses foram passando.
Logo no inicio
do mês de abril ela começou com quadros respiratórios que nós deixava
preocupados, idas constantes em médicos, irritação no nariz, irritação na
faringe, remédios, remédios e mais remédios, e nada dela melhorar. Tínhamos a
sensação que ela se afogava para respirar, principalmente quando dormia, eu e meu
marido passamos a fazer revezamento para dormir, um dormia e outro ficava
acordado do lado dela, ida aos médicos passaram a ser constantes – “Exagero de
mãe e pai, a menina não tem nada!” Sim, fomos taxados de exagerados, mas sentíamos
que tinha algo muito errado, mudamos de medico, hospital, medico do SUS,
particular, convênio, nada, absolutamente nada! “É só um resfriadinho que
complicou a faringe, tome este e aquele remédio, vai passar em 5 dias, se não
melhorar retorne aqui.”
Depois de
tantas negativas, uma noite ela começou com quadro forte de tosse, meu marido a
pegou e levou no UPA mais próximo, eu fiquei em casa com ou outros dois, pois a
minha do meio naquela noite ficou assustada e dormiu agarrada no meu pescoço,
se negando a ficar com os tios para que eu pudesse ir ao hospital. Meu marido passou
a noite toda lá com a pequena, ela na inalação. Diagnostico? Bronquiolite. Ok,
não é um problema tão serio! Retornou para a casa na manhã seguinte exausto,
chegou a pedir para que a internasse, mas o medico não achou que o quadro
necessitava de uma internação.
Resolvemos marcar
uma consulta com a pediatra dela para o dia seguinte, para ver se as medicações
estavam corretas e pedir uma segunda opinião, afinal tínhamos saído de uma
faringe irritada para uma complicação de bronquiolite. Passamos aquelas 24
horas no alerta, sem dormir! No dia seguinte, o da consulta, ela começou a
tossir novamente perto do horário do almoço, fiz inalação, ela se acalmou, nos
arrumamos e pedi para meus outros dois filhos ficarem quietos no carro, para
ela dormir, pois a tosse tinha se acalmado e ela dormiria um pouco até
chegarmos ao medico. Não andamos nem 5 km meu filho mais velho fala: - Mãe, acho que ela não esta dormindo não!
Virei na hora
para trás, e a vi branca desfalecendo! Meu marido que estava dirigindo berrou: “-
Tira ela da cadeirinha logo!” A tirei, trouxe para o meu colo e ali o desespero
aumentou! Comecei a chacoalha-la toda vez que ela ia de apagando! Meu marido
ligou a alerta e acelerou com tudo, não daria tempo de chegar na pediatra, que
era do outro lado da cidade, pedi para ele parar no UPA-SUS, que era mais próximo,
pq ela precisava de oxigênio urgente! Ele parou no meio da rua e eu entrei
naquela emergência com ela desfalecendo em meus braços pedindo ajuda! A
enfermeira da triagem nem esperou eu dar entrada na emergência, falou: “- Venha
mãe, vamos para o oxigênio agora!” A medica, da área de emergência, foi dar um
pito na enfermeira que levou uma paciente sem autorização dela, mas ao ver o
quadro da minha filha, passou a correr, oxigênio, inalação, injeção,
estabilizar, avaliar, oxigênio, aparelhos para acompanhar a oxigenação,
batimentos cardíacos, medicações... Palavras começaram a ficar perdidas naquela
confusão toda. “Liga para a central de leito, precisavam transferi-la para um
hospital que tenha UTI pediatra, para o caso de uma parada.” - “Avisa a central
que se esta menina ter uma parada aqui, não vamos poder fazer nada, é urgente!”
- “Histórico mãe, precisamos do histórico medico dela!”
Explico a
situação, do pouco que sabia deste que ela tinha chego para nós! Histórico da
mãe biológica, da prematuridade, da intolerância... Meu marido começou a correr
por fora, pelo nosso plano, conseguiu vaga no hospital infantil precisávamos de
uma UTI móvel para a transferência, depois de muita demora, o próprio plano
mandou uma UTI móvel particular para transferi-la! Parecia que os minutos que
se arrastavam, iriam definir o destino daquela historia! Meu marido foi para o
hospital, para ficar com a equipe de alerta para receber a nossa filha. Eu nunca
tinha entrado em uma ambulância, mas naquela hora entendi o pq da necessidade
de sempre dar a passagem para elas. O desespero define quem esta dentro de uma ambulância
com sirene ligada cortando os carros. Chegamos ao hospital pediátrico, quando a
porta da ambulância abriu, uma equipe a pegou e correu para dentro com ela,
sendo seguida pelo meu marido! Finalmente respirei, senti que se tivéssemos uma
complicação ali, pelo menos teríamos a UTI, avaliação novamente, exames e o
diagnostico... O que era um exagero meu e do meu marido, era uma pneumonia
silenciosa, pois ela não tinha tido nada de febre! Internação... Ali passamos
dias, sem dormir, até que ela conseguisse respirar sem oxigênio, remédios
simples não davam resultados, os antibióticos mais fortes foram usados, só aí a
pneumonia cedeu. Dois dias antes do
aniversário dela veio a alta medica... Fomos para a casa esperando o resultado
do exame de FC – Fibrose Cística, 10 dias depois veio à negativa.
A festa de 1
ano foi o marco de sua nova vida, deste então nossa filha parece que expurgou
tudo, o passado foi embora. Começou a melhorar, os problemas pulmonares passaram
a ser resfriados, começou a engordar, e pasmem, todos os exames de alergia
deram negativos. Hoje já usa leite comum, sem ser necessário as formulas. Seu
desenvolvimento, cognitivo e motor, estão perfeitos. Sim, foram meses de
cuidados, mas hoje tenho uma filha perfeitamente saudável, nada diferente das
demais crianças da mesma idade!
Amamos MUITO VOCÊ, nossa Pequena Grande Guerreira Paula!!!!
Amamos MUITO VOCÊ, nossa Pequena Grande Guerreira Paula!!!!

Que depoimento lindo! Deus está no controle de tudo!
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