domingo, 29 de novembro de 2015

Adoção Tardia e Suas fases.


Recentemente me pediram para descrever exatamente as fases da adoção tardia que meu filho passou e como aconteceu... Na internet, é fácil encontrar o texto da servidora Niva Maria Vasques Campos com o titulo: Adoção Tardia – Características Do Estágio De Convivência. Ele praticamente é uma receitinha de bolo, que meu filho seguiu passo a passo! 

Usando o texto como apoio, vou exemplificar como foram os primeiros meses de adaptação!

1. SURGIMENTO DE COMPORTAMENTOS REGRESSIVOS NA CRIANÇA
“...varia tanto na forma de expressão como na intensidade e são típicos de fases anteriores de desenvolvimento psicológico infantil como p.ex.: fazer xixi na cama ou nas roupas (mesmo que ela não tenha mais idade para esse tipo de comportamento e/ou não faça mais isso no Abrigo), querer usar fraldas e/ou mamadeiras, querer entrar dentro da barriga da mãe adotiva ou mamar em seu peito...”

Esta fase começou logo depois que chegamos em casa, seja engatinhando, seja falando como bebê ele passou a se comportar desta forma quase que diariamente. Suas crises de regressão duravam em torno de 10-15 minutos... Xixi nas roupas aconteceu 2 vezes apenas, assim como no chão do banheiro (tirava a calça e fazia no chão, em vez de fazer no vaso), sem brigas ou alarde, foi explicado que ele já era grande e que deveria sempre ir ao banheiro... Não demos uma grande importância, então ele não tornou a repetir. Na cama, aconteceu apenas 2 vezes... Também passamos pelo episódio dele passar fezes na parede do banheiro! Dei pito e nunca mais fez!

Ele começou a passar mão nos meus seios, fosse em casa, ou em publico (igual bebezinho mesmo), ficava olhando pedindo peito... Eu nunca forcei, deixei ele expressar o desejo de mamar no peito, o que foi explicado que não tinha como. Trocamos por mamadeira, que ele usou por 2 semanas, logo deixou de lado, por conta própria. Ele chegou a pedir chupeta, o que expliquei as consequências (entortar os dentes) e ele acabou usando o bico da mamadeira umas poucas vezes (que não dava nem 5 minutos), depois nunca mais.

2. AGRESSIVIDADE, EM GERAL, LOGO APÓS A FASE DE ENCANTAMENTO MÚTUO. 
“...A eclosão de comportamentos agressivos, violência física e/ou verbal - muitas vezes, gratuita ou sem aparente correlação com fatos concretos - deixa os adotantes frustrados e desconcertados sem saber o que fazer com a criança e sem saber o que fizeram para merecer tal tratamento...”
3. AGRESSIVIDADE EM PARTICULAR CONTRA A MÃE ADOTIVA 
“...é comum a mãe adotiva ser o alvo preferencial dos ataques da criança...”
Vou falar dos itens 2 e 3 juntos, já que a mãe por adoção é que mais sofre com estes episódios, já que além de ser o alvo, também (normalmente) é que fica em casa nos primeiros meses. 
Sim, meu filho me agrediu, tanto física, como verbalmente. Fugas da escola, pedradas na casa da vizinha, desafiava as pessoas que são importantes para nós (para nos afetar), tudo era motivo de guerra. Tapa na cara, chutes, xingos, arranhões... Foi uma realidade terrível de lidar, pois nunca imaginei que ele passaria por esta fase. Creio que tudo começou a dar uma melhorada à partir de 4 meses, quando ele desabafou toda a ira que sentia pelo abandono, que ele nos condenou por deixa-lo no abrigo, pois na cabeça dele NÓS, os PAIS dele o tínhamos deixado lá! Foi uma fase realmente complicada. Foi um período que precisamos de apoio para NÓS, PAIS!

4. RITMO ACELERADO DE DESENVOLVIMENTO GLOBAL DA CRIANÇA 
“... aspecto gratificante para a família adotante, uma vez que percebe a evolução rápida da criança como fruto de sua atenção e investimento. O ambiente familiar oferece novos modelos e a criança aprende tudo muito rápido, cresce, ganha peso...”

Não compre muitas roupas, todas são encostadas muito rapidamente! Meu filho saiu do nº 6 (que usava quando deixou a abrigo), para o nº 10 em questão de 6 meses. Sua pele mudou, ganhou vida, seu sorriso aumentou e o olhar triste/perdido ganhou brilho! 

5. ENFRENTAMENTO DO PRECONCEITO SOCIAL 
“... é frequente os adotantes ouvirem de familiares ou amigos frases do tipo “Para quê foi adotar e ainda por cima uma criança assim tão grande”. Viver e ouvir estas coisas não são fáceis e coloca em dúvida, muitas vezes, os pais adotivos por vezes ainda inseguros e pouco confiantes quanto a sua capacidade para o desempenho dos papéis de pai e mãe...”

Jesus, Maria Jose! Se você ainda não ouviu “as perolas da adoção”, se prepare, vai ouvir muito! Deste: Você não tem medo que ele te mate quando crescer? Até – No abrigo não tinha uma menorzinha para você escolher?

Já ignorei e já dei patada, hoje o pessoal já tá mais esperto e se comenta algo, é por minhas costas!

6. ESFORÇO SIGNIFICATIVO DA CRIANÇA PARA SE IDENTIFICAR COM OS NOVOS MODELOS PARENTAIS 
“...A criança procura imitar os novos pai, mãe, irmão(s) – ‘olha... sou igual a você”. Ela busca estabelecer laços significativos com a nova família, quer se parecer com o pai, com a Mãe, com o irmão...”

Bom, no nosso caso, meu filho e a cópia autenticada do meu esposo e tem o gênio difícil meu! Então todos cometam que ele é de fato nosso filho, que só nasceu na casa errada, mas ele absorveu nossa forma de falar e nossas tiradas! Aos poucos, esta buscando se identificar com o jeito brincalhão do pai e esta aprendendo a tirar sarro de tudo! 

7. CONSTRUÇÃO DO VÍNCULO DE FILIAÇÃO COM ATROPELAMENTO DE ETAPAS
“...O vínculo de sangue não produz necessariamente o vínculo afetivo e a filiação pode se dar independentemente do primeiro, pois está mais relacionada à disponibilidade e a dedicação do pai/mãe pelo filho(a) do que pela biologia compartilhada. Um vínculo forte, um laço como esse também não se constrói do dia para noite, inclusive entre pais e filhos biológicos...”

8. O VÍNCULO DE FILIAÇÃO PODE SE DAR DE FORMA DIFERENCIADA
“...Cada pessoa ama e expressa seu amor de forma diferente. É normal e natural que existam diferenças na relação entre pai e filho, mãe e filho, pai e filha, mãe e filha, inclusive, ditadas pela cultura ou tradição. Também existem diferenças na relação do mesmo pai e da mesma mãe com filhos diferentes. Isso ocorre em todas as famílias e na adoção também...”

Vou falar dos itens 7 e 8 juntos, já que eles se completam... 
Já falei no item 1 que nosso filho teve regressão e com ela veio o Complexo de Édipo, que teve que ser observado de perto pela psicóloga dele. O que também ocorreu - quando ele finalmente descarregou a raiva que tinha pelo abandono e pelo abrigamento - foi o renascimento. Em uma manhã de final de semana, ele veio até a minha cama, entrou entre as minhas pernas e fez o renascimento. Foi um momento mágico, de entrega e aceitação da condição de filho nosso!

9. AQUISIÇÃO DE NOVOS HÁBITOS 
“...a criança é inserida em outro grupo (familiar, social, cultural) com hábitos e valores diferentes daqueles do grupo anterior no qual se encontrava. Todos sabemos como é difícil - e leva tempo - modificar costumes e hábitos...”

Creio que o “obstáculo” maior que tivemos que lidar foi: Quem ama, não bate! Meu filho falava: “Você diz que ama a mamãe, mas não bate nela!” e, “Mãe, me bate!” 

Outra coisa, foi a a questão cultural, nosso filho veio machista! Homem não lava louça, não usa rosa, não carrega a bolsa da mulher. Mulher não dirige, mulher cozinha e cuida da casa... Isso teve que ser mudado, ainda mais no contesto familiar nosso, onde não há nada de coisa de homem e/ou coisa de mulher! 

Fonte: ADOÇÃO TARDIA – Características Do Estágio De Convivência, de Niva Maria Vasques Campos.

2 comentários:

  1. Parabéns pelo texto muito bem elaborado... esse seria ótimo passar nos grupos de apoio á adoção, para não acontecer tantas devoluções infelizmente, por ser "tardia". Bjs no coração. Lúcia

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  2. Muito esclarecedor! Parabéns pelo texto!

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