terça-feira, 10 de abril de 2018

Sou Branca e Mãe de Crianças Negras



Eu cresci na periferia e ouvi muito: “Serviço de preto!” - “Cabelo Bombril!” - “Preto quando não caga na entrada, caga na saída!” E nunca me atentei em tentar entender o que aquilo significava, como todos os brancos, aquilo não me referia, então, não tinha porque pensar naquilo e passava batido.

A questão do racismo nunca me preocupou, sou descendentes de italianos e o tema sempre me pareceu algo distante, inventado por aquelas pessoas que gostam de polemizar tudo. Afinal, nunca tinha julgado alguém pelo tom de pele ou pelas suas características físicas, mas sim pelo caráter e suas atitudes, aprendi com meus pais a respeitar a todos e segui a vida.

Quando me casei com um típico brasileiro, mistura de várias raças (índio, negro, português), o assunto também continuou a ser desconhecido para mim, não me pertencia. Até eu resolver ser mãe por adoção, aí a minha vida mudou e a cada dia tem se aberto mais para esta questão.

Meu primeiro filho é pardo, até então, ficou tranquilo. Obvio que já nos preocupamos com os possíveis preconceitos que ele passaria, mas para a sociedade, parecia tranquilo eu ter um filho pardo, mas quando chegou a segunda filha, negra, aí o choque da sociedade foi maior.

Impossível sair com ela e as pessoas não pararem! Olharem, comentarem! E é incrível, dá para sentir o “tom do olhar”, há muitos olharem de encantamento pela beleza da minha filha, mas há olharem que queimam, de preconceito, de condenação, de incredulidade. Já ouvi: “Como pode você ter uma filha negra!?!” - “Puxou quem, já que a mãe não foi?” – “Que linda, moreninha né?!”

Neste meio tempo, minha terceira filha chegou, também pela via da adoção, mas é branca, obvio que sair com ela, é passar despercebida por todos, mas quer ver sair com as duas! TODOS, absolutamente, TODOS param! Já vi olhares de senhoras recatadas inquisidores, indo e vindo das minhas filhas até a mim, questionando como pode! Buscar as meninas na escola já virou motivo de risadas minha e do meu marido, porque o olhar escandalizado das mulheres e homens no portão da escola, questionando se cada uma é de um pai é hilário!

Recentemente viajei com minha família, no meio da viagem resolvemos entrar em uma cidade e fazer uma parada, para dormir, para as crianças descansarem. Pedi um quarto, tudo certinho, fui buscar as crianças no carro. Estava tudo certo, até o recepcionista me ver chegando com a minha filha - negra - no colo. Já reconheci o olhar questionador e já pensei “lá vem!”.  “A senhora tem o documento da criança?” Para mim não é problema apresentar o documento, mas que isso fosse padrão, ele não pediu o documento da minha filha branca ou do meu filho pardo, mas da minha filha negra!

Quando chegamos no destino da viagem, um resort, meus olhos já a caça de outras pessoas negras, para servir de referência para meus filhos. Em um local com mais de 200 quartos, havia apenas um homem com o filho, ambos negros. Sem recepcionistas, sem atendentes, sem funcionários negros. Minto, uma das camareiras era negra. E assim sigo, buscando referencias negras para meus filhos, na escola, no banco, na loja, no shopping... E infelizmente, poucos eu achei! As recepções, os gerentes, os empresários, os administradores, os professores quase todos são brancos!

Aí, vejo nos grupos de WhatsApp e Facebook os brancos, que não vivenciam o racismo, questionando as cotas, alegando que isso é o maior racismo! Como eles podem alegar conhecimento de causa, se não vivenciam o racismo diariamente? Que não sabe o que é sentir a ardência do olhar do outro? Que não sabe o que é não ter direito de sair de boné e chinelo em um dia qualquer, pq pode ser julgado de trombadinha? Que tem que se manter impecável, para ser tratado com dignidade? Não sou a favor e nem contra as cotas, mas acho que este tema, deve ser debatido com quem vive isso diariamente, os negros! Mas questiono, se não empoderarmos uma ou duas gerações para que eles possam superar os anos de desvantagens sociais, econômicas e escolares, quando vamos quebrar este tabu em relação a etnia?

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Falando Sobre Adoção



Recentemente tivemos uma postagem, que viralizou nas redes sociais, que criticou a demora no processo de adoção, acabou que saiu das esferas da adoção e foi para diversos meios, inclusive virou reportagem.
Hoje, possuímos perto de 43 mil habilitados no Brasil, pessoas que já passaram por todo o processo de habilitação (curso, visitas, entrevistas) e já estão cadastrados no CNA – Cadastro Nacional de Adoção e em contrapartida, possuímos perto de 8,5 mil crianças e adolescentes aptos a serem adotados.
Então, porque estas crianças continuam em acolhimento, já que há muitos mais adotantes que crianças e adolescentes disponíveis para adoção? A explicação é simples, estas crianças e adolescentes não estão dentro do perfil que os habilitados desejam, na grande maioria, aceita crianças brancas ou pardas, 65% dos habilitados querem somente uma criança, 92% aceitam até 7 anos e saudável!
Do outro lado, nos abrigos, 60% possuem irmãos, 26% possuem alguma deficiência ou comprometimento, quase 55% são meninos, 65,39% são pardos ou negros e 62,4% tem mais de 8 anos. As equipes técnicas, juízes, promotores estão cada vez mais cientes de que devem agilizar os processos de retorno a família biológica ou destituição das crianças, mas sempre respeitando o que a lei impõem sobre prazo e prioridade da criança em viver com a família de origem, a adoção é exceção, não regra! Nenhuma comarca “esconde” criança para que elas fiquem “velhas” para depois destituírem.
Ninguém, em nenhum grupo de adoção ou na vara da infância, vai obrigar que os habilitados ampliem o perfil para que a adoção ocorra mais rápido, mas é vital que as pessoas tomem conhecimento da realidade dos perfis das crianças aptas a serem adotadas, pois, infelizmente, temos nos abrigos 8 mil crianças e jovens que estão excluídos de viverem em família, pois estão velhos, ou porque possuem irmãos ou ainda porque exigem alguma demanda a mais - cirurgia, acompanhamento psicoterápico, pedagógico, neurológico e psiquiátrico. Estas crianças e jovens, crescem na maioria das vezes, sem referência familiar, sem apoio emocional e aos 18 anos, precisam deixar os abrigos e seguir uma vida sem ajuda, às vezes, eles formam repúblicas para tentar apoiarem-se entre si a fim de superar os obstáculos que a vida adulta impõem.
Buscar se informar de todas as fases que um processo de adoção tramita, desde o acolhimento de uma criança até a adoção de fato, assim como, se preparar para a chegada dos filhos (inclusive a paciência de esperar, quando o perfil é mais restrito) é vital para que todo o processo ocorra de forma tranquila e madura para todos. O processo de adoção é claro: basta os candidatos buscarem as informações nos diversos grupos de apoio a adoção espalhados pelo Brasil, nos cursos obrigatórios para se habilitar e ainda com a própria equipe técnica da vara onde a pessoa mora.

Texto: Elimeiri Autuori Tomazeti
Fonte: http://www.cnj.jus.br/sistemas/infancia-e-juventude/20530-cadastro-nacional-de-adocao-cna

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Fica a Reflexão - Quero ter um bebê ou quero ser mãe?



    Esta semana fui chamada de ignorante, que tenho cascos, sem empatia, agressiva, infeliz, pobre de alma, sem tato.... Porque respondi, em uma postagem onde a pessoa reclama que deste 2002 (16 anos???) NÃO há nenhuma adoção na sua cidade (interior do Paraná), e que ela sente uma tristeza imensa pq a vez dela não chega.
Segue minha resposta na integra, sem edição, rsssss

“Triste pq? 
Não é sinal de que nenhuma criança está sendo negligenciada?     
Que, mesmo as que vão para o abrigo, estão conseguindo voltar para as suas famílias de origem?
Não é sinal de que, o número de gestantes drogatitas estão menores na SUA CIDADE?
Ou você acha que o juiz está abrigando bebês e deixando lá por 18 anos, só para a fila não andar?”


     Gente, que cidade ótima, este não é o sonho de todos, de que as crianças não sejam vítimas de maus tratos, de abandono, de violência? São 16 anos que nenhuma criança, na cidade dela, precisa sair de sua família de origem, quem dera que o Brasil todo fosse assim!

     Eu sou a devoradora de sonhos desalmada nos grupos, quando falo que há dois tipos de habilitados, o que quer ter um bebê e o de ser mãe, o primeiro, que deseja o bebê, é aquele que, muitas vezes, não conseguiu gerar, espera que venha a tão compensação de Deus para o seu coração, acha que só assim se sentirá completa, trocando fraldas, choros pela madrugada, ensinando a andar, falar, desfraldando.  E há o segundo grupo, que sonha em ser mãe, corre atrás, se prepara, estuda, se informa, levanta e assume o que deseja e paga o ônus do desejo da maternidade, seja ela bebê, seja ela uma criança especial, seja uma adoção tardia ou grupo de irmãos, NÃO fica condenando ninguém pelo ônus da sua escolha.

     Eu, quando iniciei o processo de habilitação li uma seguinte frase: É de uma crueldade imensa quem fica chorando porque não tem bebês para adoção! Não lembro quem escreveu isso, foi no antigo ORKUT. Levei tempo para entender, mas compreendi muito bem! Quando o adulto fica “batendo o pé” pq quer um bebê, ele está desejando que uma mulher sem estrutura engravide, que viole os direitos daquele ser já no útero, que o exponha a drogas, álcool, doenças, que toda a sua família extensa (avôs, tios, genitor) seja tão negligente como a genitora. E desejar que, em vez de ir para um berço ricamente decorado especialmente preparado para ele, vá para um abrigo, onde não terá o aconchego de mamar no peito, nem colo de madrugada nas cólicas que insistem em aparecer no meio da noite.

     Não tô escrevendo isso para que todos corram para as VIJ mudar o perfil para adoção tardia, especial, grupos de irmãos, os bebês também merecem ser adotados, mas quando critico uma postagem, e isso faço mesmo, tento instigar o pensamento do pq deixar para ser mãe daqui 10 anos, se já há crianças para adoção hoje?


Fica aí a reflexão! 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Relato de Uma Adoção Tardia.



Vou relatar um pouquinho do meu inicio com o meu filho.
Quando fui adotar me idealizei como mãe, eu seria a mãe:
- Que ouvia;
- Que questionava;
- Que acolhia;
- Que não alterava a voz; Ou seja, a mãe parceira.
Mas quando ele chegou, ele não fez o papel de filho que idealizei e me tornei a Mãe bruxa.
- Ele não me ouvia;
- Não fazia o que eu pedia;
- Me enfrentava e desafiava (em publico);
- Tudo que eu falava que era importante ele tratava com desdém e relaxo.
Eu fui criada no sistema de um olhar, se não entendia, minha mãe batia de vara até lembrar o pq estava apanhando. Então, minha mãe não precisava falar, bastava olhar para que todos em casa achasse o que fazer rapidinho.
- Notas vermelhas? Jamais!
- Interromper enquanto um adulto conversava? Jamais!
- Deixar roupas largadas? Jamais!
- Não realizar as tarefas? Jamais!
- Mentir? Jamais.
Cresci aprendendo que jamais deveria questionar um adulto, ele mandava e eu obedecia e achei que seria assim com o meu filho, bastaria falar uma vez e pronto, ele me atenderia.
Amarga Esperança que carreguei por meses...
Acordava e ficava quieta na cama para não acorda-lo, pois nossa convivência era péssima! Brigávamos o tempo todo que estávamos juntos, era um inferno na terra. Teve momentos que achei que tinha estragado a minha vida, que era tranquila e muito confortável.
Mesmo com todas as dificuldades, nunca pensei em devolução, pois sou a opinião que, compromisso assumido, deve ser levado para o resto da vida, independente da demanda, mas pensei em separação. Como ele se dava bem com o meu marido, eu ME DEVOLVERIA para meus pais, e ele ficaria com o meu esposo na nossa casa, seguiríamos com o pedido de adoção em conjunto, para garantir a ele todos os direitos legais (pensão, herança), aí restringiria a nossa convivência as visitas de finais de semana, passeios de férias, pq pensava que desta forma, os atritos diminuiriam.
Vivemos uma vida de inferno por 4 meses, até que eu tive o susto de uma suspeita de câncer, aí entrei no meu casulo emocional e passei a ignorar todos os comportamentos dele (como a minha psicóloga vivia falando que eu tinha que fazer, mas eu não conseguia). Isso foi um divisor de água, ele vendo que as provocações não surtiam resultados, começou a parar.
Mas hoje eu consigo ser realista, EU fui a maior culpada pelo inicio truculento que tivemos.
Eu fui GENERAL!
Meu filho tinha passado por tantas coisas, tantos maus tratos, era tão arredio e eu queria obediência cega dele, assim como eu fui criada!
Ele não estudava, aquilo me irritava, afinal EU estava dando a melhor educação que podia, pagando colégio, cursos, mas não perguntei se ele estava feliz lá!
Ele não cuidava das coisas, aquilo me irritava, afinal EU estava dando para ele tudo que ele nunca teve antes, mas esqueci de perguntar se ele sabia como cuidar de tudo aquilo.
Ele não comia o que EU mandava, mas nunca perguntei se ele conhecia aqueles alimentos tão diferentes do estado dele.
Sabe, aprendi a respeitar o tempo dele e ELE ME ENSINOU A MELHOR LIÇÃO QUE EU RECEBI NESTA JORNADA, aprendi a ser mãe, não a que idealizei, não uma replica da minha mãe, mas a que ele necessitava.

Hoje sou 3 mães distintas, pq cada filho reage de um jeito. E meus outros filhos devem a ele a mãe parceira, que acolhe, mas tb sabe se impor, coloca limites e mima. Foi ele que me ensinou a ser mãe, uma mãe que sabe avaliar cada momento, cada situação antes de decidir qual mãe tem que se apresentar.

* Os nomes foram retirados para resguardar o depoimento. 

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

8 Meses se Passaram...



Ontem fez 8 meses que nossa filha caçula chegou. Não falei muito da adoção dela no inicio, pq entendi que era um momento de recolhimento, mas agora resolvi escrever como foram os momentos iniciais.
No dia 15 de dezembro de 2016 às 15:10h o telefone celular tocou, estava no trabalho, tinha acabado de voltar ao trabalho depois de uma licença medica surpresa, tinha operado a apêndice de emergência e depois de quinze dias afastada, estava retornando ao trabalho. Reconheci logo o telefone da minha comarca, pensava que talvez fosse um pedido de depoimento, que vira e mexe faço, aproveitei que o cliente tinha acabado de sair para atender rapidinho até o próximo cliente chegar. Para minha surpresa, era para informar que havia uma criança no nosso perfil e questionando se poderíamos ir naquele dia a vara para saber mais do caso. Questionei se podiam adiantar algo, já imaginando uma menina de uns 8/10 anos, e aí veio a informação: “Posso te dizer que é uma menina de 8 meses!”
Aí meu mundo parou! Estão me chamando para uma bebezinha??? Oi???
Nunca, nunca mesmo imaginei ser mãe de bebê, mesmo tendo o nosso perfil definido a idade de 0 a 8 anos, sempre pensei que com o nosso perfil seria uma mocinha a chegar para completar nossa família. Falei que iria ligar para o meu marido e retornaria. Sai rapidinho da minha mesa para ligar para o meu marido, ele logo falou:

- Flor (sim, ele ainda me chama assim, mesmo com 10 anos de casados), acho que devemos falar NÃO, pq bebê menina TODOS querem e nós não temos problemas em assumir uma adoção um pouco mais especial, com deficiências ou que necessite de algum cuidado. Para esta menina certamente há um fila imensa de casais interessados, ela não ficará nem um dia a mais que o necessário no abrigo.

Concordamos em falar não, mas pessoalmente, pq aí já pediríamos a ampliação da idade para 11 anos, idade próxima do nosso filho mais velho. Marquei de ir à vara no final do dia para conversarmos, fomos prontos e certos da nossa decisão em NÃO ACEITAR a bebê e mudarmos o perfil para uma pré-adolescente.
Chegamos lá e fomos apresentados ao caso, uma menina, exposta ao HIV (com os exames apontando para a negativação) e com suspeita de ser intolerante a lactose (tomava leite especial). Nós olhamos e conversamos rapidamente pelo olhar (temos este dom) - ok, será fácil de esta menina achar uma família. Podemos falar não! – “Os casais que estão na frente falaram não e como a comarca entrará em recesso na próxima segunda, estamos buscando uma família que a possa adotar até amanhã! “
Ops, pq os casais na frente falaram não??? Meu pensamento, que é rápido como flecha, já elaborou um motivo, deve ser negra! Afinal estamos em um município de italianos, deve ser isso! Qual é a etnia dela? “Branca!” Surpresa total!!!
Pode me falar qual é o nome dela? Aí o coração palpitou rápido, ela tinha o mesmo nome que eu e meu marido falávamos que daríamos se tivéssemos uma filha, um nome dos anjos. Eu e meu marido, naquela conversa silenciosa do olhar já sabíamos que o “NÃO” aquela altura já tinha ido por água abaixo! O nome e o fato de ser rejeitada pelos casais que estavam na nossa frente, foi o sinal de que a pequena era para ser nossa!

- Em que abrigo ela está? Podemos conhecê-la hoje?
- Não querem ver a foto dela antes?
- Não, isso não nós importa!

Saímos ansiosos e fomos para o lado oposto do nosso município e encontramos, enrolada em mantinhas naquele fim de dia frio, uma pititica branquinha como leite e ficamos sem acreditar como as pessoas foram capazes de dizer não para ela! Sim, sei que nós tb quase falamos não, mas não pelo seu histórico, mas pelo fato de acreditarmos que seria muito fácil ela achar uma família, mas o passado do qual ela não tinha nenhuma culpa ou controle, a condenada. Aquele olhar esperto, que tentava entender o pq daqueles dois estranhos falavam engraçado e pq aquele menino (nosso filho mais velho) fazia palhaçada na frente dela, tentando roubar um sorriso, nós conquistou e roubou nosso coração!
Sair de lá foi difícil, doeu o coração em ter que deixa-la mais um dia no abrigo, mas saímos de lá, com a certeza de que a nossa filha brevemente estaria com a gente, que enfim tínhamos nos reencontrados.
No dia seguinte foi uma loucura, informei a minha chefia que iria emendar a licença medica com a licença maternidade e que eu voltaria dali 6 meses, pois minha filha tinha nascido para nós no final do dia anterior, trabalhei o dia todo fazendo mil planos - passar na loja mandar colocar um berço no carro, pegar o marido em casa, ir à vara assinar a guarda, ir para o abrigo e finalmente ir para casa - sim, não teríamos aproximação por conta do recesso, seria um parto rápido, sem muito tempo para nada. Aquele dia demorou a passar, tenho a sensação que cada 1 hora foi o equivalente a trabalhar 3 tamanha a ansiedade! Rssss
Nossa filha não nos deu sossego por muito tempo, logo nos primeiros dias ela apresentou varicela, tivemos que manter nosso dois outros filhos na casa da avó, para evitar contaminação, Natal e Ano Novo fiquei longe dos meus outros filhos, só meu marido indo vê-los. Dias longos, dormindo pouco, com ela largada com tanta febre e no colo 24 horas, único lugar que ela se sentia tranquila para descansar. Depois de mais de 10 dias começou a melhorar... Uma pequena folga, aí começaram os problemas de conjuntivite e problemas respiratórios, cuidados e tratamentos... Melhoras, pequenos problemas de saúde, melhoras e pioras, acabou que virou um ciclo. Passamos a ficar alertar e assim os meses foram passando.
Logo no inicio do mês de abril ela começou com quadros respiratórios que nós deixava preocupados, idas constantes em médicos, irritação no nariz, irritação na faringe, remédios, remédios e mais remédios, e nada dela melhorar. Tínhamos a sensação que ela se afogava para respirar, principalmente quando dormia, eu e meu marido passamos a fazer revezamento para dormir, um dormia e outro ficava acordado do lado dela, ida aos médicos passaram a ser constantes – “Exagero de mãe e pai, a menina não tem nada!” Sim, fomos taxados de exagerados, mas sentíamos que tinha algo muito errado, mudamos de medico, hospital, medico do SUS, particular, convênio, nada, absolutamente nada! “É só um resfriadinho que complicou a faringe, tome este e aquele remédio, vai passar em 5 dias, se não melhorar retorne aqui.”
Depois de tantas negativas, uma noite ela começou com quadro forte de tosse, meu marido a pegou e levou no UPA mais próximo, eu fiquei em casa com ou outros dois, pois a minha do meio naquela noite ficou assustada e dormiu agarrada no meu pescoço, se negando a ficar com os tios para que eu pudesse ir ao hospital. Meu marido passou a noite toda lá com a pequena, ela na inalação. Diagnostico? Bronquiolite. Ok, não é um problema tão serio! Retornou para a casa na manhã seguinte exausto, chegou a pedir para que a internasse, mas o medico não achou que o quadro necessitava de uma internação.
Resolvemos marcar uma consulta com a pediatra dela para o dia seguinte, para ver se as medicações estavam corretas e pedir uma segunda opinião, afinal tínhamos saído de uma faringe irritada para uma complicação de bronquiolite. Passamos aquelas 24 horas no alerta, sem dormir! No dia seguinte, o da consulta, ela começou a tossir novamente perto do horário do almoço, fiz inalação, ela se acalmou, nos arrumamos e pedi para meus outros dois filhos ficarem quietos no carro, para ela dormir, pois a tosse tinha se acalmado e ela dormiria um pouco até chegarmos ao medico. Não andamos nem 5 km meu filho mais velho fala: - Mãe, acho que ela não esta dormindo não!
Virei na hora para trás, e a vi branca desfalecendo! Meu marido que estava dirigindo berrou: “- Tira ela da cadeirinha logo!” A tirei, trouxe para o meu colo e ali o desespero aumentou! Comecei a chacoalha-la toda vez que ela ia de apagando! Meu marido ligou a alerta e acelerou com tudo, não daria tempo de chegar na pediatra, que era do outro lado da cidade, pedi para ele parar no UPA-SUS, que era mais próximo, pq ela precisava de oxigênio urgente! Ele parou no meio da rua e eu entrei naquela emergência com ela desfalecendo em meus braços pedindo ajuda! A enfermeira da triagem nem esperou eu dar entrada na emergência, falou: “- Venha mãe, vamos para o oxigênio agora!” A medica, da área de emergência, foi dar um pito na enfermeira que levou uma paciente sem autorização dela, mas ao ver o quadro da minha filha, passou a correr, oxigênio, inalação, injeção, estabilizar, avaliar, oxigênio, aparelhos para acompanhar a oxigenação, batimentos cardíacos, medicações...  Palavras começaram a ficar perdidas naquela confusão toda. “Liga para a central de leito, precisavam transferi-la para um hospital que tenha UTI pediatra, para o caso de uma parada.” - “Avisa a central que se esta menina ter uma parada aqui, não vamos poder fazer nada, é urgente!” - “Histórico mãe, precisamos do histórico medico dela!”
Explico a situação, do pouco que sabia deste que ela tinha chego para nós! Histórico da mãe biológica, da prematuridade, da intolerância... Meu marido começou a correr por fora, pelo nosso plano, conseguiu vaga no hospital infantil precisávamos de uma UTI móvel para a transferência, depois de muita demora, o próprio plano mandou uma UTI móvel particular para transferi-la! Parecia que os minutos que se arrastavam, iriam definir o destino daquela historia! Meu marido foi para o hospital, para ficar com a equipe de alerta para receber a nossa filha. Eu nunca tinha entrado em uma ambulância, mas naquela hora entendi o pq da necessidade de sempre dar a passagem para elas. O desespero define quem esta dentro de uma ambulância com sirene ligada cortando os carros. Chegamos ao hospital pediátrico, quando a porta da ambulância abriu, uma equipe a pegou e correu para dentro com ela, sendo seguida pelo meu marido! Finalmente respirei, senti que se tivéssemos uma complicação ali, pelo menos teríamos a UTI, avaliação novamente, exames e o diagnostico... O que era um exagero meu e do meu marido, era uma pneumonia silenciosa, pois ela não tinha tido nada de febre! Internação... Ali passamos dias, sem dormir, até que ela conseguisse respirar sem oxigênio, remédios simples não davam resultados, os antibióticos mais fortes foram usados, só aí a pneumonia cedeu.  Dois dias antes do aniversário dela veio a alta medica... Fomos para a casa esperando o resultado do exame de FC – Fibrose Cística, 10 dias depois veio à negativa.  

A festa de 1 ano foi o marco de sua nova vida, deste então nossa filha parece que expurgou tudo, o passado foi embora. Começou a melhorar, os problemas pulmonares passaram a ser resfriados, começou a engordar, e pasmem, todos os exames de alergia deram negativos. Hoje já usa leite comum, sem ser necessário as formulas. Seu desenvolvimento, cognitivo e motor, estão perfeitos. Sim, foram meses de cuidados, mas hoje tenho uma filha perfeitamente saudável, nada diferente das demais crianças da mesma idade!

          Amamos MUITO VOCÊ, nossa Pequena Grande Guerreira Paula!!!!

sábado, 22 de julho de 2017

Lidando Com o Preconceito na Adoção




Há uns dias, minha cegonha e a amiga Rosana Silva me pediu para escrever um texto falando do preconceito que passamos na adoção, principalmente na tardia. Não sou psicóloga, nem assistente social, sou apenas uma mãe que teve que aprender a lidar com este tema no dia-a-dia! Nem sempre é fácil falarmos sobre isso, porque é algo que nos machuca e expõe, mas vendo muitos relatos de pessoas que dizem que sofrem este tipo de preconceito na escola, no trabalho e, pior, de membros de sua família ou da (do) cônjuge, me fez ceder a este pedido.
Sim, o preconceito existe, e em algum momento vai te atingir ou pior, vai atingir teus filhos. Então fazer disso um tabu não irá ajudar em nada! Devemos falar SEMPRE com os nossos filhos sobre adoção, amor, união, isso dará um poder imenso a eles quando forem alvos de bullying na escola ou segregação familiar.
Você passará por diversas situações, desde a de um segurança com olhar especulativo te seguindo pq você esta contendo uma birra de sua filha de 2 anos, achando que você a está roubando; ou uma senhora sem noção, que questiona na frente de todos como pode você ter um filha negra sendo branca ou ainda, quando você está na fila do mercado negociando com o filho que ele pode escolher somente um doce e uma senhora na sua frente fala que se ele fizer birra é para falar que ele é adotado. Sim, são situações comuns e que a maioria das famílias já tiram de letra, mas as que marcam e ferem na alma são as que sofremos na escola e na família.
Na escola, porque não podemos estar lá para ser o escudo... festas de aniversários onde não são convidados, professoras que os tratam como delinquentes, que expõem a condição da adoção em frente aos demais colegas, não respeitando o direito da criança em decidir se deseja ou não compartilhar esta informação com os demais, segregação de professores preconceituosos, exposição a situações vexatórias na frente dos colegas. Estes são apenas alguns dos problemas comuns que ocorrem no âmbito escolar. Isto podemos resolver tendo uma conversa direta e, muitas vezes, mudando nossos filhos de escola 1, 2, 3, 4 vezes, até acharmos uma que os tratem como alunos e não como saco de pancadas de adultos mal resolvidos.
Na família as questões são mais delicadas, famílias que ainda estão se vinculando já tendo que passar por situações tristes de preconceito, segregação, ou tendo de ouvir piadinhas de mau gosto sobre os filhos e tendo que engolir, pelo bem e pela união familiar. Avós que não aceitam os netos “ilegítimos”, que dão presentes para todos, menos para os netos “postiços”; tias e tios que levam todos os sobrinhos para o parque ou shopping, menos os que chegaram pela via da adoção; familiares que taxam as crianças de problemáticas, mesmo que as demais crianças da família possuam os mesmos comportamentos e travessuras; a lista de preconceito e segregação neste meio é imensa, ler, ouvir, compartilhar destas dores no grupo de pós-adoção é de doer à alma!
Não há uma receita de bolo para fazer tudo dar certo e as coisas se encaixarem, mas é vital que as famílias constituídas pela adoção saibam que devemos nos resguardar. O PRÉ-CONCEITO sobre este tema é imenso, mesmo entre pessoas jovens e não tem como mudar este pensamento enraizado por anos, assim como muitos tentaram nos desestimular sobre a adoção antes dela ocorrer, e não conseguiram, também não vamos, do dia para a noite, fazer que eles mudem os conceitos passados de geração à geração. Elas só mudarão se estiverem preparadas e abertas para isso, então, expor as dificuldades do dia-a-dia só vai confirmar a elas que filhos por adoção são problema na certa.
Então há certas coisas que ocorrem no período de adaptação que NÃO devemos compartilhar com as famílias e amigos - surtos, agressões, história pregressa, história dos genitores - isso pertence aos membros que dividem o mesmo teto, não aos demais. Falar para seus pais (avós das crianças) que certas coisas estão ocorrendo, vão deixá-los muito tristes, pois aos saber que seus filhos estão sendo agredidos e ofendidos pelos netos ou que a maternidade/paternidade não esta ainda ocorrendo da forma sonhada e desejada faz nascer uma antipatia imediata pela criança, eles não entendem que isso é uma fase de adaptação, eles não fizeram o curso de adoção. Outra coisa, devemos compreender e aceitar, sim, aceitar, que as pessoas de mais idade, ainda tem o conceito que uma criança que veio pela via da adoção, tem que ser grata e obediente aos que a acolheram, que há diferença entre filiação biológica e adotiva.
Evitem entrar no arranca-rabo da comparação, ainda há muito disso dentro das famílias. Expor de forma clara e firme que isso é injusto para o seu filho é vital! Uma criança que foi desejada, amada, deste a sua fecundação e que teve todos os estímulos necessários para seu desenvolvimento intelectual, social e afetivo, não pode ser comparado com uma criança que vivenciou o completo oposto.
Se soubermos respeitar o tempo dos membros da família extensa, sendo firmes e deixando os limites claros, respeitando o que ocorre dentro de casa sem expor para os demais membros, com o tempo a vinculação irá ocorrer, ou pelo menos, aprenderão a conviver de forma harmônica. 

domingo, 9 de julho de 2017

DIFICULDADES DA ADAPTAÇÃO.




Queria devolver minha mãe, ela não se esforça em fazer o que quero!
Meus pais não me entendem, não se esforçam, acho que eles tem algum problema, devem ter me enganado para que eu os adotassem!
Faz 30 dias que estou com meus pais, mas sinto que eles não me aceitam como filha, já fiz tudo que podia, acho que não esta dando certo!
Minha mãe não sabe se comportar em público, sempre me deixa constrangida!
Por mais que eu ensine meu pai, ele faz ao contrário!
Sabe, eu queria pais mais novos, mas como não tinha, ampliei o meu perfil e aceitei estes que estavam disponíveis, mas não me sinto completa e realizada!
O passado dos meus pais me assusta, as vezes acho que eles não tem mais jeito!!!
Sonhei tanto em ter uma família, mas nunca achei que iria me sentir tão exausta depois da chegada dos meus pais, eles sugam a minha energia, me chamam o tempo todo, sinto falta de ter um tempo só para mim!

JÁ PENSOU QUE SE QUEM EXPUSESSE AS DIFICULDADES DA ADAPTAÇÃO DA ADOÇÃO FOSSEM AS CRIANÇAS???

VOCÊ ATENDE AS EXPECTATIVAS DO SEU FILHO, O IDEALIZADO POR ELE?

SUA IDADE?
SUA ETNIA?
SUA FORMAÇÃO?
SEU CABELO?
SUA CULTURA?
SEU GOSTO MUSICAL E LITERÁRIO?
SUA RELIGIÃO?

PENSE!

PARE DE ESPERAR QUE EM POUCOS DIAS SEU FILHO - POR ADOÇÃO - JÁ TENHA VINCULAÇÃO AFETIVA, SEJA UM LORD DE COMPORTAMENTO E UM SUPER DOTADO NA ESCOLA!


FAMÍLIA SE CONSTRÓI COM O TEMPO, DEDICAÇÃO, RESPEITO E AMOR!!!

domingo, 16 de abril de 2017

O "Glamour" da maternidade.

No mundo adotivo o que mais de lê é a angustia da espera do filho almejado pelas futuras mamães e de forma mais recente, várias mamães se expressando de como os filhos - tão desejados - dão trabalho, são agitados, respondões, e por aí vão as lamentações! Sempre que leio este tipo de postagens me pergunto se estas pessoas conviveram com crianças antes da chegada dos filhos! Vamos então falar de alguns obstáculos que encontramos com o lado nada glamoroso da maternidade!

Ir ao mercado com uma criança pequena chega a ser quase uma Missão Impossível, seja pq eles pedem muitas coisas ou pq se você esta na correria do dia-a-dia, então tem que arrastar o pequeno junto, que quer olhar cada embalagem colorida dos pacotes de bolachas, doces e brinquedos. Se for dois ou mais então, é bem provável que ali possa começar uma pequena guerra e disputa pela atenção e doces, afinal, eles estarão em maioria. Ao chegar em casa e descarregar o carro, compras e filhos se torna uma nova Missão Impossível II, filhos querendo abrir os pacotes de doces, ao mesmo tempo que você tem que carrega-los para a casa, junto com as sacolas e controlar tudo, um verdadeiro teste de paciência!

Então chega a hora de fazer a refeição, cozinhar com as crianças em volta deveria ser teste do MasterChef, pq você tem que cozinhar, separar brigas, dar atenção ao bebê que insiste em puxar suas calças, não se machucar, tirar dúvidas da lição de casa e ainda fazer algo comível, então quem consegue fazer isso sem puxar um congelado do freezer é um verdadeiro mestre cuca da cozinha. Aí você se senta à mesa e começa o novo teste de paciência, fazer os pimpolhos comerem!!! Saladas e legumes se tornam o terror, pq mesmo que eles comam sempre, se um inventar que naquele dia não quer, os demais vão fazer o mesmo! Se um cuspir, os demais vão fazer o mesmo! Se um falar que está sem fome, os demais vão fazer o mesmo! Você terminará a refeição dolorida, tamanha a tensão, reparará que se comeu, certamente não conseguiu sentir o sabor dos alimentos e se não comeu será como a minha sogra fala: “Depois que meus filhos pari, nunca mais minha barriga enchi!”

Lavar roupa uma vez na semana, como era quando você não tinha filhos, será uma lenda distante, você lavará roupas o tempo todo, nunca mais o cesto de roupas ficará vazio, assim como a louça sobre a pia da cozinha! Você não entenderá o que acontece, pois você tem certeza que terminou de limpar e lavar tudo, mas em um passe de mágica, tudo se acumulará novamente!

Sua casa nunca mais irá parar arrumada, por mais que você tenha uma sala de brinquedos, os filhotes vão marcar território da casa toda, incluindo o seu quarto e closet, fora que depois da maternidade, você não terá mais tempo para banhos de mais de 3 minutos e será sempre a última a toma-lo... Salão de beleza, manicure, massagem, serão como presentes de Natal!

Uma coisa comum nas mamães de 3 ou mais filhos são os cabelos curtos, a falta de tempo para dar conta de tudo - casa, mercado, trabalho, comida, roupas, louças - fazem com que elas adotem um visual mais clean e prático, incluindo tênis, rasteiras, jeans, camisetas e muitos elásticos de cabelo!

As vezes você se sentirá a personagem principal do filme Minha Mãe é Peça, principalmente se te convidarem para um evento em local aberto! Você sairá  tempo todo correndo e berrando, sim o berro será uma forma bastante comum de comunicação com os pimpolhos que você tem em casa!

E onde foi parar o Glamour da maternidade? Ficou nas propagandas de margarina e nas novelas da TV! rsss

quarta-feira, 15 de março de 2017

Devolução de Crianças Adotadas Não Se Justifica!


Hoje eu li em um grupo de apoio um verdadeiro debate sobre devolução de crianças e adolescentes por suas famílias adotivas... Algumas pessoas com uma defesa fervorosa destes pais, alegando que eles têm os mesmos direitos à entrega para adoção que seus genitores!

Sim, fiquei assustada com esta linha de raciocino e pensei muito se devia, ou não, escrever sobre isso...

Primeiro, os genitores (pais biológicos) normalmente são pessoas que se levaram pelo vicio das drogas, pela violência. Muitos sequer possuem a opção de não engravidarem, tamanho o grau de alienação que vivem. Fora as vítimas de abuso, incesto, agressões e miséria extrema. Então, os filhos destas pessoas não são abrigados pq seus genitores optam por fornecer uma chance de vida melhor, na verdade, estes genitores vivem alheios de suas próprias condições, acreditando que aquela forma de vida e cuidado são normais.

Agora quem opta em adotar, faz isso de forma consciente, passa por várias entrevistas, e tem a oportunidade de pensar e rever seu desejo de maternidade/paternidade várias vezes durante todo o processo de habilitação e espera. Ainda há, depois deste tempo todo, o tempo de aproximação e estagio de convivência, ainda nesta etapa, dá para a pessoa simplesmente sair do mundo adotivo, sabe aquele ditado – “quando a água bate na bunda, ou você aprende a nadar, ou morre afogado" – ainda há nesta fase a realidade e a possibilidade de retroceder, sim a criança ou adolescente vai sentir a rejeição, mas em nada se compara a rejeição de viver ANOS em uma família e ser devolvido depois.

Mesmo depois de todas as dificuldades da habilitação e a angustia da espera, uma pessoa que opta por dar andamento à adoção, passando anos com uma criança e a devolve (com ou sem motivo), a MEU ver, é de uma apatia extrema! Ela não tira “somente” a chance de a criança conseguir uma família, tira a sua dignidade, sua autoestima, seu amor próprio, seu respeito, seu valor, a transforma e personaliza em um objeto que deu defeito, algo sem valor, que pode ser descartado a qualquer momento.


Quem deseja ter filhos têm que saber que NÃO há selo de garantia e, sendo biológicos ou adotivos, filhos respondem, filhos quebram as coisas, filhos sujam as roupas, filhos não gostam de estudar, filhos bagunçam, filhos mudam sua prioridade, filhos tiram privacidade, filhos dão gastos, filhos ficam doentes, filhos são sujeitos de direito e não bonecos para que adultos infantis brinquem de casinha até se cansarem e resolvam jogar no canto! 

sexta-feira, 10 de março de 2017

Maternidade e/ou paternidade múltipla é vantajoso!


    Recentemente li a reportagem “7 Vantagens de Ter Mais de 3 Filhos”, e vim aqui falar de sobre a maternidade/paternidade múltipla e como é vantajoso. 

    Sim, é muito cansativo ter mais de 1 filho, 2 filhos é facilmente administrável, agora com 3 filhos passa a ser um desafio e um jogo de cintura enorme. Cuidar para que nenhum seja excluído, ou melhor, esquecido na correria do dia-a-dia é uma grande tarefa. Ser pais de 3, ou mais filhos, é ter hora para levantar, mas raramente saber quando e vai conseguir deitar. Mercado, lanche da escola, mochilas, conversas, lição de casa, alimentação, médicos, vacinas, exames, reuniões escolares... São tantas coisas para dar conta, que os dias passam e quando você percebe os meses já se passaram. Trabalhar fora e dar conta de uma rotina com mais de 1 filho é muito cansativo, mas tem seu lado gratificante...

    Quando eu tinha só do Sam, tudo era focado nele, tudo que queria ganhava, passeios e gastos toda hora. Com a chegada da Juju precisamos pisar um pouco no freio dos mimos excessivos! Ali ele já aprendeu a dividir o quarto, brinquedos e principalmente, a atenção exclusiva dos pais... 

    Ela já chegou tendo que dividir, então para ela foi algo natural. Se com a chegada dela o freio começou a ser puxado, a vinda da Paula brecou de vez tudo! Nova reestruturação financeira para dar conta de 3 filhos, mas o que vimos é que, se por um lado passamos a controlar os gastos, ensinando nossos filhos que não podiam ter tudo que desejavam, e que as coisas custam caro, por outro lado vimos que o amor não tem limites!  O cuidado, o carinho, as pequenas brigas por atenção, os dengos, os cutucões para provocar, tudo absolutamente, tudo ganhou fôlego, e que fôlego! 

    E que lição de vida, para nós e para eles! Eles aprendem a competir, a dividir, a cuidar, a amparar, a compreender, a respeitar, a amar, amar muito! Ver nossos filhos crescendo com todos estes valores é uma lição de vida que, só quem tem mais filhos pode ver no dia a dia. 

    Para você que deseja ter filhos, que tal pensar logo em 3 ou 4 pimpolhos pela casa???

domingo, 16 de outubro de 2016

Desabafo sobre Mundo Adotivo...



Estou no mundo na adoção deste maio de 2012. Estes anos foram de muita aprendizagem para mim e também de muitas decepção!

Quando, eu e meu marido, resolvemos dar entrada com o pedido de habilitação, tinha a ILUSÃO de que havia uma chuva de crianças para se adotar no Brasil dentro do nosso perfil desejado da época, que era menina entre 4 e 6 anos, etnia branca ou parda. Logo que ligamos para a VIJ da nossa comarca, para tomar ciência dos documentos e tempo de espera para o nosso perfil, levamos um balde á água gelada, media de espera para o perfil desejado, 4-5 anos. Quem me conhece, sabe que paciência não é meu forte, nem um pouco, por sinal!

Entrei nos grupos de apoio a adoção que tinha no ORKUT e lá aprendi MUITOOOO!!!!

Descobri os perfis das crianças disponíveis para a adoção... Quais eram as características padrões de suas famílias biológicas, quais eram os desafios de quem opta por adoção tardia (tardia de fato, acima de 6 anos), quais os passos da habilitação, destituição, guarda, adoção... Mergulhei em um aprendizado imenso! Descobri o significado dos termos jurídicos, troquei sonhos com os demais, mas principalmente, cresci como pessoa. Descobri que queria ser mãe! Que o filho idealizado, não era o filho real abrigado. Descobri que o papel de mãe que idealizei que eu seria, iria ser trocado, rapidamente, pelo perfil de mãe que meu filho ou filha necessitaria.

Sim, soube de comarcas e juízes relapsos, que simplesmente esqueciam crianças em abrigos, soube de crianças abrigadas destes bebês. Soube de defensores públicos biologistas ao extremo, soube de retorno de crianças a suas famílias biológicas que terminaram em tragédias ou em traumas maiores... Mas soube também que a grande maioria tenta fazer o certo! Soube de grupos de irmãos abrigados tardiamente, que não tinham adotantes porque eram velhos demais... Soube de crianças sem adotantes, pq o histórico familiar era complicado, de crianças abusadas (física ou emocionalmente) que tinham o seu direito de ter família esquecidos, porque simplesmente o passado as condenava, um passado que elas não tinham qualquer culpa, mas elas é que foram condenadas a viverem em abrigos.  

Cresci, amadureci, mudei o perfil e me tornei mãe dos filhos que Deus e a justiça me confiariam antes mesmo deles chegarem, até mesmo de terem sexo, idade, etnia ou nomes conhecidos. E assim como eu, tive o privilegio de ver muitas outras famílias ampliando, grupos de irmãos, HIV, idade, sexo indiferente, doenças graves ou moderadas, deficiências...

Infelizmente, nos últimos meses tenho visto um retrocesso de perfil... A cada pergunta que leio nos grupos de apoio, meu coração murcha, porque vejo o distanciamento gritante da realidade das crianças e jovens abrigadas.

  • Habilitados querendo “filhos” bilíngues, onde a maioria das crianças abrigadas tem defasagem escolar.
  • Habilitados querendo fazer “teste drive” antes de aceitar adotar, usando o projeto de apadrinhamento afetivo com má intenção.
  • Habilitados querendo “filhos” como muletas para cuidar dele na velhice, como se adoção fosse moeda de troca.
  • Habilitados querendo bebês e reclamando da espera, que certamente será longa em quase todas as comarcas brasileiras, afinal VIJ não é fabrica de bebês!
  • Habilitados para bebês saudáveis, CONDENANDO e CRITICANDO quando os adotantes de adoção tardia, grupos de irmãos, crianças especiais expõem sua alegria em sua maternidade/paternidade. Mostrando que o filho não precisa ser “perfeito” para torna-los felizes e pedindo uma reflexão dos demais, para que eles também pensem se não dá para abrir um pouco mais o perfil.
  • Habilitados de adoção tardia e/ou grupos de irmãos, querendo praticamente um book e currículo das crianças abrigadas, porque entendem que já que aceitam um perfil mais amplo, elas têm o direito de escolher a dedo a criança que aceitará em sua casa.
  • Pais adotivos, descrevendo as crianças e jovens que aceitaram como “filhos”, como ingratos e problemáticos, com má índole, simplesmente porque acreditam que os filhos devem ser AGRADECIDOS pela grande caridade de ter sidos adotados, desconhecendo por completo as fases de adaptação.


Tenho a sensação de que as pessoas se habilitam e esquecem que se preparar para uma maternidade ou paternidade, seja adotiva ou biológica, é uma preparação constante, que leva meses e mesmo assim, depois, terá momento que ficará totalmente perdido, mas terá, dentro de si, a certeza que deseja ser mãe ou pai para sempre, custa o que custar.

Esquecem que na ADOÇÃO a PRIORIDADE é encontrar FAMÍLIAS para as crianças e jovens REAIS abrigados, e não crianças irreais para os adultos insurgentes!

domingo, 9 de outubro de 2016

Hoje é Dia de Festa

Tudo bem, não faz tanto tempo assim, mas alguns detalhes se perdem com o tempo... Forço um pouco a memória e lembro que passamos na VIJ, conversamos com a equipe técnica e pegamos a autorização para conhecer e começar a aproximação com a nossa pequena. Com o coração na boca falamos que iríamos naquela mesma tarde ao abrigo, afinal nossos corações estavam os pulos pela imensa curiosidade de saber como era a nossa filha e de vontade de pega-la no colo...

Nossa amiga e cegonha Ana Paula nos leva até ao abrigo, se despede nos desejando sorte com um sorriso enorme no rosto... Uma nova Cegonha entrava nas nossas vidas para nunca mais sair... Respiramos fundo e apertamos a campainha do abrigo, logo vem uma jovem abrir, nos leva na recepção pedindo para sentarmos, vem à psicóloga e ali começa uma conversa, fico naquele momento imaginando quantas conversas como aquela elas já tinham invocado e presenciado, quantas historias aquele sofá foi testemunha e quantas ainda aconteceriam naquele local.

Depois das conversas, eis que a enfermeira entra com um toquinho de gente no colo – minha mente bateu asas naquele momento, indo ao passado, exatos 1 ano e meio antes, quando conhecemos o nosso primeiro filho, um meninão de 8 anos, mas que usava roupas tamanho 6, que naquele momento pouco lembrava o garoto enorme que ele tinha se tornado – minha mente volta ao presente se questionando – por que será que crianças abrigadas são tão miúdas?



Naquele momento tomei consciência que eu era uma decepção naquele abrigo, principalmente se a equipe esperava uma mãe calorosa! Estarrecida, assustada, abismada, congelada eram palavras que me descreviam perfeitamente naquele momento!

        Eu comecei a caminhar na maternidade de trás para frente, meu primeiro filho chegou “criado”. Comia, tomava banho, se arrumava sozinho e agora estava vindo um bebê, era tudo novo, uma nova realidade, na pratica, me tornei mãe de primeira viagem!

Quando a gente esta na fase da espera e recebe o famoso telefonema, a nossa imaginação nos pega uma peça... 1 ano e 3 meses, esta era a informação que eu tinha, passei a imaginar o tamanho... Procuramos outras crianças da mesma idade e fomos “montando” a nossa filha, quando eu a vi entrando, tão miudinha, com aquele olhar enorme, desconfiado, simplesmente travei e pensei - Vou dar conta? - Meu marido, na hora viu meu desespero, tomou à dianteira e a acolheu em seu colo. Naquele dia éramos duas nos questionando, parecia que dava para ver a incerteza no olhar da Juju - Esta vai ser a minha mãe? Sei Não! Não me parece que ela sabe o que tá fazendo! 



Hoje vejo que a equipe do abrigo sentiu meu pavor, pois me pediram para dar comida, brincar, dar banho, acho que era para "quebrar o gelo", como dizem! Eu fiz o que me pediram, mas era visível a desconfiança da pequena em minha capacidade. rssss



Agora os meses passaram, hoje ela completa 3 anos... Faz quase 2 anos que ela chegou e agora nada me assusta... Ops! Quase nada! Somente a inteligência da pequena, que é capaz de dar nó em pingo d’água!


Parabéns Juju! Parabéns Filha!!! 
Feliz 3 aninhos!!!

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Amor entre Irmãos - Vinculo Eterno



Ontem li, nos grupos virtuais de apoio à adoção, o lindo depoimento da Shirley Machado sobre a passagem do seu querido pai e de como foi importante o apoio e presença de seus irmãos ao seu lado. Ao mesmo tempo, ela fala da alegria em saber que seu filho terá este mesmo apoio dos irmãos, quando ela não mais estiver presente.

Um grupo de irmãos, separados... mas que possuem forte vínculo afetivo entre eles, que se amam, que se cuidam, que se veem! 

Deixo aqui meu apelo a quem aceita fazer adoção conjunta (grupos de irmãos separados, mas com o compromisso de manterem o vínculo e de se verem constantemente), não faça este tipo de adoção apenas da boca para fora.

Muitas são as queixas das famílias, no pós-adoção, de que a(s) família(s) que adotaram os menores simplesmente somem ou não aceitam mais manter o contato depois que a nova certidão sai.

Vocês não estão enganando o judiciário, não estão furtando os laços de irmãos da equipe técnica. Estão enganando e furtando a vida do(s) filho(s) de vocês. Um dia, eles vão saber que possuem irmãos e quando for atrás, pode saber pela outra família que eles queriam contato, mas foi você que impediu... que foi você que se afastou... que foi você que lhe tirou os irmãos... e você pode não gostar de ser cobrado disto.


Lembre-se: você não tem o direito de separar o que a vida e Deus uniu! 

sábado, 9 de julho de 2016

Decidir adotar não é complicado, difícil é decidir ter um filho!


"Decidir adotar não é complicado, difícil é decidir ter um filho!"


Se você fala esta frase, muito já argumentam que não é verdade, que adotar é difícil, como se filho por adoção fosse diferente de ser filho! E não é!

Então antes que você decida ter um filho (independente de qual via venha), saiba que ter um filho é maravilhoso, mas complicado! Ser responsável por um ser, educar, amar, amparar, proteger, mas ao mesmo tempo ensinar a tomar suas próprias decisões, superar medos, dúvidas, angustias, assumir erros e acertos, é complicado, mas falo, é MARAVILHOSO acompanhar tudo isso!

Uma experiência muito boa, mas mega cansativa. Vê-los brincar e ficar pensando em qual profissão vão ter, o que conquistarão no futuro... É empolgante e muito, muito desafiador! Pensar que vão sofrer a 1ª desilusão amorosa, o vestibular, o 1º emprego e desemprego... Achando que tudo isso é muito e é o fim do mundo. Ter que acompanhar tudo, sabendo que é não é tão grave, mas respeitar o momento de crescimento e amadurecimento de cada um. Tentar impor limites, educar, mas saber dosar para ser amigo confidente de suas artes e amores.

Saber que terá dias que você irá dormir muito brava, mas acordar no outro dia com um abraço, um beijo ouvindo: Mãe, te amo! Parece piegas, mas é recompensador!

Ver o sorriso a cada conquista, os olhos brilhando a cada nova aventura... Os passeios, as brincadeiras, as piadas bobas... Deve ser por isso que, por mais que dê trabalho, seja cansativo e caro, a grande maioria não se arrepende da escolha de ter filhos. É como viver tudo novamente, mas com outros olhos, outras expectativas. Tudo ganha um brilho diferente!

Graças à maternidade aprendi que tem coisas que não vale a pena brigar, aprendi a dar um tempo, esfriar a cabeça, depois conversar. Também aprendi que tem coisas que não tem como relevar, que tem que impor limites na hora. Aprendi a brincar, mas a dar um basta, quando chega ao limite. Já a 2ª maternidade me trouxe novos desafios e graças a isso vou aprendendo e crescendo como pessoa. 

Talvez a maternidade/paternidade tenha este objetivo na evolução, nos tornar melhores do que somos, mais humanos, mais pacientes, mais assertivos e, principalmente, mais maleáveis.